As eleições de 2026 terão impacto direto e profundo sobre os destinos dos municípios brasileiros, razão pela qual exigem atenção redobrada e engajamento efetivo dos munícipes. Não se trata apenas de escolher representantes, mas de compreender como o arranjo político-eleitoral influencia, de forma estrutural, a capacidade de cada cidade planejar seu futuro, acessar recursos e afirmar sua autonomia.
Há muito se observa um processo de “loteamento” dos municípios pelo Poder Legislativo, fenômeno que, embora não seja exclusividade do sistema político nacional, assume no Brasil contornos particularmente sensíveis. Assim como no cenário internacional contemporâneo, em que sob a nova ordem mundial regiões do mundo passam a orbitar sob a influência de grandes potências, EUA, China e Rússia, internamente os municípios acabam inseridos em zonas de domínio político, delimitadas pela força eleitoral e financeira de parlamentares com maior densidade de poder.
Esse modelo distorce a lógica da representação democrática. Parlamentares, frequentemente, relegam a segundo plano suas atribuições legislativas e fiscalizatórias para concentrar esforços na gestão seletiva de emendas parlamentares, transformadas em principal instrumento de influência local. O resultado é uma concorrência eleitoral desigual, para não dizer desleal: quem controla o fluxo de recursos públicos passa a deterintransponível vantagem competitiva, dificultando o surgimento de novas lideranças e reduzindo o espaço para propostas inovadoras e projetos de longo prazo.
O problema se agrava quando se observam as assimetrias regionais. Muitos municípios convivem com vizinhos cujas lideranças acumulam capital político ao longo de décadas, sustentado por laços familiares enraizados, pela permanência prolongada no poder ou pela projeção estadual e nacional de seus dirigentes. Esse capital se converte em maior capacidade de articulação, influência sobre decisões estratégicas e prioridade na atração de investimentos, particularmente os públicos. Trata-se de um ciclo que se retroalimenta: municípios fortestornam-se ainda mais fortes, enquanto municípios frágeis veem sua fragilidade aprofundada, com poucas condições de disputar oportunidades ou alçar voos mais altos.
Nesse contexto, as eleições de 2026 não podem ser tratadas com indiferença ou voto automático. Exigem criteriosa análise de cada eleitor, capaz de enxergar além da obra pontual ou do recurso ocasional viabilizado por emendas, priorizando compromissos com o fortalecimento institucional dos municípios, com a equidade regional e com uma atuação legislativa que vá além da lógica imediatista da distribuição de verbas. O que não o impede de escolher quem viabiliza a obra pontual.
Entretanto, o engajamento consciente da população é, sem dúvida, o único contraponto capaz de romper o desequilíbrio e a ineficiência que a incomodam.
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