A cidade está ferida, sim. Mas não é um ferimento superficial que se cura com pomada e band-aid; é uma infecção sistêmica, uma gangrena moral que cheira a dinheiro velho e cinismo barato. Moramos, como dizem, em uma cidade vendida, e o pior é que o preço foi irrisório. Fomos trocados por migalhas, promessas vazias e a ilusão de que “agora vai”.
O que realmente define a paisagem não são os prédios, mas o silêncio. O silêncio é o verdadeiro cimento dessa farsa. Ele não é neutro; é comparsa, é cúmplice de cada manobra, de cada porta fechada onde se decide o futuro de todos. É o silêncio da maioria que, cansada ou anestesiada, prefere a paz podre à perturbação da verdade.
E nesse cenário, o palco principal é a Câmara de Vereadores, transformada em um teatro de fantoches. Lá, a fiscalização é uma piada interna. Os aplausos são mais altos que as indagações. Onde deveria haver o crivo da lei, há apenas uma reverência subserviente. Vereadores submissos e presos na sua própria covardia. Estão ajoelhados, não perante a Constituição, mas perante a conveniência e, pior, perante os interesses particulares que os mantêm no poder ou lhes garantem a próxima benesse.
Temos um prefeito condenado que ainda manda. Pense na audácia dessa frase. É a prova de que a moralidade pública aqui é tão frágil quanto papel molhado. A lei existe para os pequenos; para os grandes, ela se dobra, se arrasta, ou, convenientemente, fica cega. O poder aqui não reside na legitimidade do voto honesto, mas na força bruta da impunidade e na certeza de que a indignação popular é fogo de palha.
E o povo? Ah, o povo. Levanta-se todos os dias enganado, consumindo a narrativa que lhe é vendida, aceitando o mínimo como se fosse o máximo. A esperança é trocada por migalhas de benfeitorias, e a memória é curta, resetada a cada ciclo eleitoral.
Enquanto isso, a imprensa, que deveria ser o quarto poder e a voz estridente da denúncia, se cala. Não é falta de notícia; é falta de peito e, talvez, de independência financeira. Quem cala, nesse contexto, não apenas consente: quem cala ratifica a venda, carimba a nota fiscal da imoralidade.
Portanto, a cidade vendida não é um mito. É uma realidade mantida não por um único corrupto, mas pelo coral do silêncio que permite que a podridão continue a prosperar. A cura só virá quando o silêncio for rompido pela fúria justa e a resignação for trocada pela exigência irredutível de moralidade. Até lá, continuaremos respirando o ar pesado da cumplicidade.
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