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A EVOLUÇÃO SILENCIOSA DO FÍGADO GORDUROSO: DA GORDURA AO CÂNCER

Por: Dr. João Lindolfo*

O fígado gorduroso, atualmente denominado doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), tornou-se uma das doenças mais frequentes da atualidade. Estima-se que cerca de um terço da população adulta apresente algum grau de acúmulo de gordura no fígado. O mais preocupante é que a maioria dos pacientes não apresenta sintomas e desconhece completamente que possui a doença.

O problema começa de forma aparentemente simples. O excesso de peso, o diabetes, o colesterol elevado, os triglicerídeos altos e a hipertensão arterial favorecem o depósito de gordura dentro das células hepáticas. Nessa fase inicial, chamada esteatose hepática, o paciente geralmente não sente nada. Muitas vezes o diagnóstico é feito por acaso durante um exame de rotina.

Embora a presença de gordura no fígado já mereça atenção, o maior risco ocorre quando essa gordura provoca inflamação. Nesse estágio, o organismo passa a produzir tecido cicatricial dentro do fígado, processo conhecido como fibrose. Diferentemente da gordura, que pode ser revertida com tratamento adequado, a fibrose representa uma lesão estrutural do órgão.

Com o passar dos anos, a fibrose pode progredir silenciosamente. O paciente continua se sentindo bem enquanto o fígado vai perdendo gradualmente sua capacidade de funcionamento. Quando a fibrose se torna extensa, surge a cirrose, uma condição grave e muitas vezes irreversível. Nessa fase podem aparecer complicações como acúmulo de líquido na barriga, hemorragias digestivas, confusão mental e insuficiência hepática.

O estágio mais preocupante dessa evolução é o desenvolvimento do carcinoma hepatocelular, o principal tipo de câncer de fígado. Pacientes com cirrose apresentam risco significativamente maior de desenvolver essa neoplasia, que frequentemente exige tratamentos complexos e pode levar à necessidade de transplante hepático.

Um dos grandes desafios é que exames de sangue podem permanecer normais durante anos, mesmo em pacientes com fibrose avançada. Da mesma forma, o ultrassom, embora seja amplamente utilizado, oferece apenas uma avaliação superficial do fígado e possui limitações importantes para identificar fibrose e quantificar adequadamente a gordura hepática.

Por esse motivo, especialistas recomendam que pacientes com fatores de risco — especialmente obesidade, diabetes tipo 2, síndrome metabólica ou histórico familiar de doença hepática — sejam submetidos a métodos mais modernos de avaliação. Entre eles destaca-se o FibroScan, exame não invasivo que mede simultaneamente a quantidade de gordura acumulada no fígado e o grau de rigidez hepática, permitindo identificar precocemente pacientes com fibrose significativa.

O diagnóstico precoce é fundamental porque a progressão da doença pode ser interrompida. Perda de peso, alimentação adequada, atividade física regular e controle rigoroso do diabetes, da pressão arterial e dos lipídios são medidas capazes de reduzir a gordura hepática e diminuir o risco de evolução para cirrose e câncer.

Além disso, novos medicamentos vêm sendo desenvolvidos e estudados em pesquisas clínicas para o tratamento das formas mais avançadas da doença. Essas terapias representam uma esperança para milhões de pessoas que apresentam risco elevado de progressão.

O mais importante é entender que o fígado gorduroso não deve ser encarado como uma alteração benigna ou sem importância. Trata-se de uma doença potencialmente progressiva que pode evoluir de forma silenciosa durante décadas até atingir estágios graves. Quanto mais cedo o diagnóstico for realizado, maiores são as chances de evitar danos permanentes.

 

* Dr. João Lindolfo Cunha Borges é um profissional de destaque na área de endocrinologia no Brasil. Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional (SBEM) no Distrito FederalAlém disso, ele é vice-presidente da Aliança Pesquisa Clínica Brasil e membro de várias academias médicas, incluindo a Academia Brasileira de Medicina da Reabilitação e a Academia Brasileira de Medicina Militar. 

Ele também tem uma carreira acadêmica notável, sendo docente na Universidade Católica de Brasília e pioneiro no uso de DXA (densitometria óssea) no BrasilSua formação inclui uma graduação em Medicina pela Universidade de Brasília e uma pós-graduação na Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, onde participou da descoberta do hormônio liberador do crescimento.

 


O Centro de Pesquisa Clínica do Brasil (CPCB) está conduzindo estudos clínicos com tratamento e acompanhamento gratuitos para pacientes com doença hepática gordurosa e fatores de risco metabólicos. Pessoas interessadas em obter mais informações ou avaliar a possibilidade de participação podem entrar em contato pelo telefone 3364-3364.


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