A Jaula Dourada da Ilusão
Houve um tempo em que as palavras de canções e os ideais políticos ecoavam em mim como um chamado à batalha. Eu, com meu romantismo estudantil, acreditava fervorosamente nas promessas de um mundo melhor, na pureza dos movimentos sociais e na retidão inabalável de meus ídolos. Via a história como uma linha reta de progresso e a justiça como um destino inevitável. Era um leão em potencial, rugindo contra o que me parecia errado, convicto de que minha energia e minha indignação poderiam, sozinhas, derrubar muros e construir pontes.
A frase de Disraeli, o primeiro-ministro inglês de origem judaica nos anos de 1870 — “Os mais vivos governam os menos vivos” —, na época, me parecia uma sentença cínica, talvez um eco distante de uma realidade que eu teimava em não acreditar. Eu a lia e a guardava, sem que seu veneno sutil pudesse permear a couraça da minha ingenuidade. Fui perceber o significado real dessa frase muito tempo depois, quando a vida, com sua habitual brutalidade, começou a despir as minhas ilusões, uma a uma.
Foi um processo lento, quase imperceptível a princípio. Um choque aqui, uma decepção ali. Mas a verdade, como uma maré persistente, foi erodindo a minha praia de certezas. Percebi que somos iludidos por sistemas de quaisquer governos, sejam eles declaradamente autoritários ou supostamente democráticos. As promessas se esvaem, os programas sociais se perdem em burocracia, e a “voz do povo” raramente alcança os ouvidos que realmente importam. A máquina, seja qual for sua cor ou ideologia, tem um funcionamento próprio, impulsionado por engrenagens que raramente se alinham com os anseios genuínos da maioria.
Essa percepção foi um soco no estômago. Eu me senti como um leão preso no zoológico, olhando para as barras, mas ainda imaginando que era o Rei da Selva. Continuava a rugir, a me agitar, a acreditar que minha ferocidade era real e potente, quando, na verdade, eu era apenas um espetáculo, parte de uma estrutura maior que me confinava. Eramos (e somos) prisioneiros da nossa própria ilusão. Acreditamos na autonomia, na liberdade de escolha, na capacidade de mudar o jogo, mas estamos, em grande medida, condicionados pelos mesmos sistemas que nos prometem a libertação.
O golpe final veio ao revisitar meus ídolos. Aqueles que, em tempos de ditadura, com suas lindas canções, incitavam a resistência, a mudança, a verdade. Suas rimas, seus protestos, eram o bálsamo para as feridas da alma, a inspiração para a luta. Mas, com o tempo, e com o “fim” do tal regime militar, vi muitos deles transigirem, se adaptarem, alguns até mesmo abraçarem o establishment que combateram com tanta paixão. Não viviam o que pregaram, não eram fiéis ao que escreveram. A voz que me inspirou a ser livre parecia agora engaiolada em sua própria jaula dourada, feita de conforto e conveniência. Viramos torcedores de times de direita ou de esquerda. Um manequeismo que divide as pessoas. Um dualismo ideológico que nos leva a uma visão simplista do sistema. A moralidade virou um artigo de luxo, a ética está sendo mastigada pela corrupção e as plateias aplaudem. Somos tolerantes com os corruptos.
Essa ilusão se desfez, mas não me deixou cínico, apenas mais vigilante. O leão pode estar no zoológico, mas ele ainda tem a memória da selva. E essa memória, por si só, é uma forma de resistência. A aceitação de que “os mais vivos governam os menos vivos” não é um convite à inação, mas um chamado à desilusão consciente. É entender o jogo para, talvez um dia, poder jogar melhor, ou, no mínimo, não ser mais uma peça ingênua no tabuleiro de quem realmente detém o poder. Só os mortos veem o fim da guerra.
“Quem sabe faz a hora Não espera acontecer”…
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