Autor: Pérsio Isaac
A palavra “escrúpulo” tem o peso da história e a leveza de uma metáfora perfeita. Ela vem do latim scrupulus, que significa “pequena pedra pontiaguda”. E a história por trás dela é um espelho afiado do nosso tempo.
Na Roma Antiga, os legionários marchavam longas distâncias em suas sandálias militares, as caligae. E no meio do caminho, uma pequena e traiçoeira pedra podia se alojar entre a sola e o pé, causando uma dor constante e incômoda. O soldado tinha uma escolha: suportar a dor e continuar, ou parar para tirar a pedra, correndo o risco de ser punido por atrasar as tropas.
Essa pequena pedra, esse scrupulus, se tornou o símbolo da dúvida moral, do incômodo da consciência que nos faz hesitar quando algo não parece certo. Ter escrúpulos, portanto, era sentir essa dor, essa pequena pedra ética no sapato.
Mas o poder, a gente sabe, sempre viaja em liteiras.
Senadores, tribunos e outros homens de poder não andavam a pé. Viajavam confortavelmente a cavalo ou de carroça, imunes à poeira da estrada e às pedras no caminho. Eles não tinham scrupulus para suportar. E é daí que vem a ideia de que quem está no poder muitas vezes “não tem escrúpulos”: eles não sentem o incômodo moral que atrasa as pessoas comuns, que nos faz parar e pensar. Eles não sentem mais a dor que vem com a decisão errada.
A pequena e incômoda pedrinha da ética foi removida há tanto tempo que a sola do sapato da consciência deles se tornou calejada, insensível. A corrupção, a mentira e a traição, que para nós seriam como a mais afiada das pedras, para eles se tornaram parte da paisagem.
Eles marcham em frente, pisando em tudo e em todos, sem que o incômodo da consciência os impeça. No final das contas, o mundo se divide entre aqueles que ainda sentem a pequena pedra e aqueles que já se livraram dela.
E a crônica dos nossos tempos é a de uma marcha em que os líderes, confortáveis em suas benesses, mamando nas tetas de um Estado corrupto e ineficiente, olham para baixo com desprezo para os que ainda hesitam, sentindo a pequena pedra da honestidade no sapato.
Eles perderam o escrúpulo e, com ele, perderam a própria humanidade.

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