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A PRÁTICA MUNICIPAL DA IMPORTAÇÃO DE SECRETÁRIOS

A prática de “importar” secretários municipais, embora frequentemente polêmica, não é novidade no ambiente da gestão pública brasileira. Trata-se de uma estratégia recorrente em municípios que buscam acelerar seu desenvolvimento econômico e institucional, especialmente quando percebem limitações internas em termos de qualificação técnica, experiência administrativa ou capacidade de inovação.

Estrategicamente, a medida pode ser altamente vantajosa. Ao trazer profissionais de fora, a administração pública amplia seu repertório de competências, incorpora experiências bem-sucedidas de outras localidades e estimula uma visão mais integrada do desenvolvimento regional. Nesses casos, espera-se que os gestores externos cheguem com uma leitura mais técnica e menos contaminada por disputas políticas locais, favorecendo decisões baseadas em evidências, eficiência e planejamento de longo prazo. Além disso, a circulação de profissionais entre municípios pode contribuir para uma espécie de “gestão compartilhada”, na qual soluções e práticas são disseminadas regionalmente, gerando ganhos coletivos e até redução de custos operacionais.

Esse modelo também sinaliza uma mudança de mentalidade, valorizando a gestão profissionalizada. Ao priorizar critérios técnicos na escolha de secretários, o município demonstra compromisso com resultados e com a qualificação da máquina pública, afastando-se, em tese, de indicações meramente políticas. Em contextos onde há escassez de mão de obra especializada, a importação se torna necessária para garantir a execução de políticas públicas mais complexas e estruturantes.

No entanto, os riscos são igualmente relevantes e não podem ser negligenciados. O primeiro deles é o desconhecimento da realidade local. Um secretário que não compreende as especificidades sociais, econômicas e culturais do município pode enfrentar dificuldades na implementação de políticas públicas eficazes. A ausência de vínculos com a população gera distanciamento, reduzindo o comprometimento com resultados de longo prazo.

Outro ponto sensível é a percepção da sociedade. A nomeação de profissionais de fora é quase sempre interpretada como desvalorização dos talentos locais ou, ainda mais grave, como um reconhecimento implícito da incapacidade técnica da própria população. Esse sentimento, não raro, gera resistência política, dificulta a governabilidade e compromete a legitimidade da gestão.

Há ainda o risco de dispersão de foco, especialmente quando o secretário mantém vínculos ativos com outros municípios ou atua simultaneamente em diferentes frentes. Nesses casos, a dedicação exclusiva, fundamental para a gestão pública, fica irremediavelmente comprometida.

Contudo, a maior, mais danosa e mais frequente ameaça reside na deturpação desse modelo por interesses políticos. Quando a escolha de secretários externos ocorre por imposição de padrinhos políticos, perde-se completamente a governança e o caráter técnico da decisão. Em vez de promover desenvolvimento, a prática passa a alimentar redes de favorecimento, abrindo espaço para o chamado “nepotismo cruzado” e para a transformação da estrutura pública em um mecanismo de acomodação de interesses, mais conhecido como “cabide de emprego”. Esse cenário não apenas compromete a eficiência administrativa, como também fere princípios básicos da gestão pública e tende a ser fortemente rejeitado pela população.

Assim, importar secretários é uma ferramenta legítima e até necessária para o desenvolvimento municipal, desde que pautada por critérios rigorosamente técnicos, transparência e compromisso com resultados. Fora disso, deixa de ser estratégia e passa a ser distorção, com custos políticos, administrativos e sociais que não se justificam.

 

Luiz Bittencourt