A decisão carioca de remanejar os cerca de R$ 5 milhões originalmente destinados à Guarda Municipal para custear eventos e shows, justamente no momento em que o Rio de Janeiro experimenta uma aguda e persistente crise de segurança, expõe uma contradição grave no comando das prioridades públicas. A recente operação saneadora no município, que ganhou repercussão nacional, confirmou o que o carioca já sabia de cor: a insegurança tomou conta do cotidiano e não há mais tolerância social para improvisos, omissões ou desvios de foco.
É nesse cenário que a escolha do município se torna ainda mais injustificável. Quando a população clama, de forma inequívoca, por proteção, presença institucional, prevenção e resposta rápida à criminalidade, o poder público municipal demonstra estar seduzido por uma lógica ultrapassada e perigosa: a política do “pão e circo”. Como sabemos, trata-se de uma estratégia que busca amortecer tensões sociais, não por meio de políticas públicas estruturadas, mas por entretenimento subsidiado e benefícios imediatistas que rendem aplausos fáceis, porém nenhuma solução duradoura.
Os objetivos e suas consequências são óbvios: manipulação do senso de urgência, desviando o olhar da população daquilo que realmente importa; submissão e dependência social, que enfraquecem a capacidade de cobrança cidadã; estagnação econômica, já que nenhum território inseguro consegue atrair investimentos, manter empregos ou preservar empresas e, por último, controle social por alienação, com a ilusão de normalidade produzida artificialmente por festas, shows e ações assistencialistas.
Num município onde a violência dita os ritmos e as rotinas, onde cidadãos vivem sob tensão permanente e onde operações de retomada de território se tornaram regra, e não exceção, reduzir verba da segurança municipal equivale a aprofundar o risco coletivo. Trata-se de um estratégico equívoco que subestima a inteligência do cidadão e desrespeita o consenso social a exigir prioridade absoluta para a ordem pública.
Populismo não é política pública. Popularidade não é governança. Nenhum evento, por mais brilhante que seja, consegue esconder o óbvio: sem segurança, não há cidade funcional, não há economia vibrante, não há liberdade, não há vida urbana.
O caminho escolhido não conduz a um porto seguro e o município do Rio de Janeiro, mais do que nunca, precisa que suas autoridades procurem balancear o cálculo eleitoral com a proteção do cidadão.
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