A invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 não foi um ato isolado de agressão, mas o clímax de décadas de tensões geopolíticas, ambições imperiais russas e profundos choques de identidade entre Moscou e Kiev. Os reais motivos da invasão são uma intrincada tapeçaria de fatores históricos, geopolíticos e ideológicos.
1. O Trauma Histórico e a Ambição Imperial Russa
A fundação do problema reside na visão russa de que a Ucrânia não é uma nação soberana legítima, mas uma extensão histórica e cultural da própria Rússia.
A Ideia de Russkiy Mir (Mundo Russo): O Presidente Vladimir Putin e seu círculo ideológico operam sob a crença de que russos e ucranianos são, na verdade, um único povo. Essa visão ignora séculos de cultura ucraniana distinta e o Holodomor (a Grande Fome orquestrada por Stálin nos anos 1930), que forjou uma profunda identidade nacional ucraniana baseada na resistência à dominação russa.
O Colapso da URSS: Para Putin, o fim da União Soviética em 1991 foi a “maior catástrofe geopolítica do século XX”. A independência da Ucrânia, com seu vasto território e acesso ao Mar Negro, é vista como o desmembramento de um império que a Rússia tem o direito e o dever histórico de reconstituir, pelo menos em sua esfera de influência.
2. O Choque Geopolítico
O Alargamento da OTANO segundo motivo central é a expansão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para o leste. A Rússia vê o avanço da aliança militar ocidental como uma ameaça existencial direta:
A “Linha Vermelha”: Desde 1999, quando a OTAN começou a incorporar ex-membros do Pacto de Varsóvia, a Rússia tem alertado que a entrada da Ucrânia e da Geórgia na aliança é uma “linha vermelha” inegociável. A Ucrânia compartilha uma fronteira de mais de 2.000 km com a Rússia e é crucial para a profundidade estratégica russa.
A Ameaça Percebida: Moscou argumenta que se a Ucrânia se tornasse membro da OTAN, mísseis ocidentais poderiam ser posicionados a poucos minutos de voo de Moscou. A invasão, na visão russa, foi uma “guerra preventiva” para evitar esse cenário.
3. O Fator Político Ucraniano: Democracia e Distanciamento
O momento da invasão foi precipitado por eventos na própria Ucrânia, onde o povo repetidamente rejeitou a influência russa:
As Revoluções de Cor: A Revolução Laranja (2004) e, principalmente, a Revolução de Maidan ou da Dignidade (2014) derrubaram líderes pró-Rússia. Maidan foi o ponto de inflexão: milhões de ucranianos foram às ruas para derrubar o presidente Viktor Yanukovych, que rejeitou um acordo de associação com a União Europeia sob pressão de Moscou.
A Resposta de Moscou (2014): A Rússia viu Maidan como um golpe de estado orquestrado pelo Ocidente. A resposta imediata de Putin foi a anexação da Crimeia e o apoio militar às repúblicas separatistas de Donetsk e Luhansk no Donbass. A guerra de 2022 foi, portanto, uma expansão da guerra iniciada em 2014.
A Democracia: A Ucrânia estava aprofundando suas reformas democráticas e seu alinhamento com a Europa. A Rússia percebeu que o tempo estava jogando contra seus interesses: a cada eleição e a cada reforma, a Ucrânia se afastava de forma irrevogável de sua esfera de influência.
Conclusão: Uma Guerra de Três Dimensões A invasão de 2022 foi uma tentativa da Rússia de resolver, pela força, esse triplo dilema:
- Impedir a perda cultural e histórica da Ucrânia para o Ocidente.
- Impedir o avanço geopolítico da OTAN até suas fronteiras.
- Destruir a democracia ucraniana e instalar um regime fantoche que garantisse sua subserviência.
A guerra não é apenas sobre território, mas sobre a soberania da Ucrânia e a segurança da Europa. A Rússia, sob Putin, demonstrou que está disposta a pagar o preço de uma guerra brutal para reafirmar seu antigo status de grande potência e reverter o veredicto da história que selou o fim do seu império.

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