Carregando agora

BARRA DO PIRAÍ MERECE ALGUMAS REFLEXÕES

Quando, por algum motivo, as decisões e os indicadores econômicos, sociais de Barra do Piraí são analisados surge a impressão de que o município vem sendo submetido a uma síndrome que poderia ser chamada, sem exagero, de equilíbrio do atraso”. Isso porque rotineiramente é encontrado um conjunto de paradoxos estruturais que, ao invés de provocar reação, acaba sendo administrado como se fosse inevitável. Acontece que, por mais desafiadores que sejam, os obstáculos não são intransponíveis. Porém, provavelmente por costume, o município entra no modo administrar contradições, tangenciando o desenvolvimento.

O primeiro paradoxo é surreal. O município contribui para o abastecimento hídrico da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, convive com recorrentes episódios de enchentes, mas enfrenta crônicas dificuldades no próprio abastecimento de água. Resumindo, sobra água para o Rio de Janeiro, sobra água para enchentes, mas falta água para o consumo de Barra do Piraí. E, portanto, assistimos o município administrar uma assimetria que não faz o menor sentido.

Outro exemplo é a exposição agropecuária em um município que possui terra, água, clima e produtor rural. De posse de todos esses fatores, a exposição barrense, em vez de funcionar como instrumento de geração de negócios, tecnologia e integração produtiva, permanece concentrada na dimensão festiva. Não há dúvida de que eventos festivos são importantes para o turismo, mas não substituem as oportunidades econômicas do agronegócio.

Abdicando do espaço de negócios, o município perde a chance de impulsionar o produtor local, atrair investimento, fortalecer cadeias produtivas compatíveis com o setor. É o típico caso em que o poder público utiliza instrumentos desproporcionais para limitados objetivos e se esquece de ferramentas adequadas para alavancar a economia. Em outras palavras, usa canhão para caçar passarinho.

A logística também é um ponto essencial a se considerar. Sem acesso direto à Via Dutra e sem ferrovia operacional, Barra do Piraí conta somente com a BR-393 em críticas condições, mas permanece discutindo a possibilidade de se tornar um hub logístico sem executar medidas concretas para viabilizar essa posição, desconsiderando, por exemplo, que desenvolvimento logístico não nasce de expectativa e contemplações não atraem empresas.

Enfim, é esse hábito de administrar contradições que repercute, agora sim inevitavelmente, na economia local e na qualidade dos serviços públicos, como educação e saúde, que, como sabemos, são consequências diretas da capacidade econômica do município, menos pela disponibilização de recursos e muito mais pelo padrão de exigências exercido pelo poder econômico.

Para não estender em demasia, as escolhas municipais têm construído a percepção de que a insistência em administrar paradoxos, em manter insuficiente leitura estratégica do ambiente regional e em ignorar a limitada incorporação tecnológica contribui para a preservação do histórico padrão de lento crescimento do município.

Barra do Piraí merece algumas reflexões.

 

Luiz Bittencourt

SUGESTÃO DE LEITURA:  O VELHO E PERMANENTE DESAFIO DAS EMPRESAS: https://revistadiaria.com.br/artigos-e-opiniao/o-velho-e-permanente-desafio-das-empresas/