A recente trajetória do Brasil impõe ao observador atento um persistente sentimento de apreensão, resultado do acúmulo de fragilidades que se estende por décadas e chega a 2025 com contornos ainda mais preocupantes. Não se trata de um revés pontual, mas de um processo histórico no qual decisões, omissões e incapacidades cobram do país um preço elevado.
Nos anos 1980, a indústria era um dos pilares da economia nacional, respondendo por quase metade do Produto Interno Bruto. Quatro décadas depois, sua participação encolheu para cerca de 12%, evidenciando uma desindustrialização precoce e mal administrada. A perda de densidade industrial comprometeu a geração de empregos qualificados, a inovação tecnológica e a competitividade internacional, criando um círculo vicioso de baixo crescimento e dependência de setores menos sofisticados.
Esse enfraquecimento estrutural se reflete diretamente na renda do cidadão. A renda per capita brasileira perdeu posições de forma expressiva no ranking internacional, caindo da 48ª colocação, em 1980, para a 87ª posição atualmente. O dado é eloquente: ao longo de quatro décadas, o país empobreceu vendo sua população perder poder aquisitivo e qualidade de vida em comparação ao resto do mundo.
No ensino, o quadro é igualmente desalentador. Desde a primeira edição do Programme for International Student Assessment – PISA, em 2000, o desempenho do estudante brasileiro permanece estacionado nas últimas posições do ranking internacional. O que está em jogo, fica evidente, não é acesso, mas qualidade, gestão e prioridades. Sem consistência no ensino, o país limita sua capacidade de formar cidadãos críticos, trabalhadores produtivos e lideranças capazes de conduzir um projeto nacional de desenvolvimento.
Paralelamente, políticas sociais concebidas com o mérito de combater a evasão escolar e a extrema pobreza foram sendo ampliadas e desvirtuadas ao longo do tempo. Programas originalmente transitórios se transformaram em permanentes estruturas de dependência, a ponto de hoje cerca de metade da população depender, direta ou indiretamente, de transferências do estado. O risco é claro: substituir a promoção da autonomia pela administração da pobreza.
A deterioração ambiental proporcionou terreno fértil para a proliferação da corrupção, regularmente impune, disseminada de forma sistêmica (mensalão, petrolão, INSS, para citar os visíveis), drenando recursos do contribuinte, corroendo a confiança nas instituições e confirmando a sensação de injustiça. A corrupção tornou-se não apenas um desvio moral, mas um relevante fator econômico, elevando custos, afastando investimentos e aprofundando desigualdades.
Como se não bastasse, a recente escalada tributária, com 30 aumentos de impostos nos últimos 36 meses, compromete a previsibilidade, inviabiliza planejamentos empresariais e mantém o Brasil entre os países com maior carga tributária do planeta, sem a contrapartida de serviços públicos eficientes. O resultado é um Estado cada vez mais caro, pouco eficaz e distante da realidade de quem produz.
É nesse contexto que o debate político se cristalizou na dicotomia entre direita e esquerda, enquanto o Brasil real se divide de forma concreta: de um lado, os que trabalham, produzem, consomem e sustentam o sistema; de outro, os que dependem permanentemente desse esforço. Essa clivagem não é ideológica, é fiscal, econômica e social, e começa a mostrar claros sintomas de exaustão.
O país, enfim, dá sinais de enorme dificuldade em fechar a conta.
Superar esse quadro exigirá mais do que retórica ou disputas políticas: demandará coragem para enfrentar privilégios, redefinir prioridades, recuperar a centralidade da educação e da produção e reconstruir um projeto de país que volte a premiar o trabalho, a eficiência e a responsabilidade.
![]()