No teatro da vida pública, a anistia é uma peça de um ato só, mas com um epílogo que se arrasta por décadas.
É o perdão coletivo que, em tese, deveria ser um bálsamo para feridas sociais, uma espécie de pomada política para cicatrizar as fissuras de um país em conflito. Mas como toda pomada, ela pode curar um lado enquanto irrita o outro, ou, pior, pode simplesmente esconder a ferida sem jamais a tratar.
A história nos mostra que a anistia no Brasil sempre foi um ato complexo, um emaranhado de interesses, medos e esperanças. Na ditadura, a lei que libertou exilados e presos políticos também “perdoou” os crimes dos torturadores. Foi a anistia do pacto, da transição negociada, da paz possível, mas não da justiça plena. O preço da democracia foi o silêncio sobre a violência. E muitos, de fato, voltaram e cantaram sobre a esperança, a liberdade e a beleza de um novo dia. Parecia um final feliz.
Mas o tempo, esse cronista implacável, tem a mania de reescrever as narrativas. E agora, a anistia volta à cena, mas com um figurino diferente. Se antes era a bandeira de quem lutava por liberdade, hoje se tornou um escudo para quem é acusado de atentar contra a democracia. O coro que pedia o perdão para os de outrora, agora clama por punição para os de agora.
É aí que o roteiro da peça se torna ácido. O perdão, que parecia um princípio universal, se mostra seletivo, dependente do contexto e do lado em que se está. A pomada milagrosa de ontem, que cobriu as feridas dos “revolucionários”, parece não servir para as escoriações dos “vândalos” de hoje.
É o dilema da anistia: ser um instrumento de reconciliação ou de conveniência? É a balança da justiça que, ora pende para um lado, ora para o outro, de acordo com o peso de quem a manipula. E assim, o Brasil segue em seu eterno ensaio, onde o perdão parece ser um privilégio, e não um direito, e a reconciliação, uma promessa que o tempo sempre deixa de lado.
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