O brasileiro vive hoje sob um dos mais perversos paradoxos da vida pública: paga muito, paga sempre e recebe pouco, quando recebe.
A carga tributária é esmagadora, complexa, cumulativa e, em muitos casos, irracional. Tributa-se a renda do trabalho, tributa-se o consumo dessa renda, tributa-se a aquisição de bens duráveis (imóveis, veículos, etc.) e tributa-se indefinidamente a posse desses mesmos bens (IPTU, IPVA, etc.). O mesmo recurso é onerado sucessivas vezes, sem que haja correspondência em serviços públicos minimamente compatíveis com o esforço exigido do contribuinte.
Esse modelo fiscal sufoca o cidadão produtivo e destrói o próprio sentido de cidadania. Imposto, em qualquer sociedade civilizada, é pacto: o indivíduo transfere parte de sua riqueza ao Estado em troca de segurança, saúde, educação, infraestrutura e justiça. No Brasil, esse pacto inexiste. Basta ver os padrões de ensino público, de saúde pública e de segurança pública. O que se observa é um sistema que arrecada como país desenvolvido, mas entrega como nação em colapso institucional.
Quando o cidadão precisa acessar os serviços financiados por essa engrenagem arrecadatória, encontra, quase sempre, o que há de pior em gestão, planejamento e qualificação profissional. O caso recente da formação médica é grave e alarmante. Avaliações recentes revelaram que 13 mil formandos não demonstram proficiência mínima para exercer a medicina e que 60% dos estudantes de 99 cursos não alcançaram o nível mínimo de conhecimento, reflexo direto da irresponsável proliferação de cursos, da captura ideológica de processos seletivos e da ausência de rigor acadêmico. Estamos diante de uma tragédia anunciada: médicos mal formados não produzem apenas diagnósticos errados. Produzem sequelas, sofrimento e óbitos.
A preocupação se agrava quando se percebe que há no Brasil o dobro de escolas de medicina do que nos EUA, país com população 60% maior, sem o número de vagas de residência médica compatível com a formação anual de 45 mil médicos.
Se o Conselho Federal de Medicina não assumir com firmeza a responsabilidade de barrar o exercício profissional de quem não reúne condições técnicas mínimas, o país não conseguirá conter o avanço da insegurança sanitária, que já é estrutural. Mais grave ainda é o uso político da formação médica, como no caso da reserva de 80 vagas por uma Universidade Federal para membros do MST, em processo seletivo limitado a uma redação e a análise de curriculum escolar. A ausência de rigorosos critérios técnicos compromete não apenas a qualidade da educação, mas também a credibilidade acadêmica e o próprio direito à vida do futuro paciente. Não se trata de inclusão social, trata-se de temeridade institucional.
A degradação extrapola a saúde pública e contamina também o sistema privado, onde a excelência torna-se privilégio restrito a poucos nichos de alta renda, enquanto a maioria enfrenta planos sucateados, burocracia abusiva e serviços precários. O resultado é perverso: o cidadão paga duas vezes, via impostos e via serviços privados, e ainda assim permanece desassistido.
Esse cenário não é fruto do acaso. Ele decorre de uma tóxica combinação entre corrupção sistêmica, aparelhamento ideológico, incompetência gerencial e desprezo pelo mérito. O Brasil não sofre de falta de recursos; sofre de ausência de responsabilidade, de rigor e de compromisso com o interesse público.
O que o país está fazendo com o cidadão, é, sem exagero, hediondo. Trata-se de uma violência silenciosa, cotidiana, institucionalizada. Uma violência que não se expressa apenas na fila do hospital, mas no diagnóstico errado, no tratamento tardio, na morte evitável. É a falência do Estado em sua função mais elementar: proteger a vida.
Sem uma profunda reforma tributária, educacional e, essencialmente, institucional e moral, que resgate o mérito, a técnica, a ética e a responsabilidade, o Brasil continuará refém desse ciclo de arrecadar muito, gastar mal, entregar pouco e destruir confiança.
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