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ENFIM A POSSIBILIDADE DE UM ACORDO MERCOSUL E UE

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O acordo Mercosul–União Europeia, negociado ao longo de 25 anos, chega a sua fase decisiva precisamente quando o ambiente internacional se tornou incerto.

A aprovação pela maioria dos países europeus, com resistências relevantes de França, Hungria, Polônia, Irlanda e Áustria, deixa claro que o caminho no Parlamento Europeu será turbulento. O cerne das objeções, o temor de impactos sobre o setor agrícola, revela que o debate não é apenas técnico, mas profundamente político, envolvendo identidades regionais, subsídios e a própria noção de competitividade no espaço europeu.

Do ponto de vista brasileiro, há um componente ambíguo difícil de ignorar. A abertura comercial na escala inicialmente prevista coloca a indústria nacional diante de concorrentes mais eficientes, com maior densidade tecnológica e cadeias logísticas consolidadas. Isso imporá uma inadiável agenda de modernização: inovação, digitalização, eficiência logística, melhores práticas de gestão e governança deixam de ser opções e passam a ser condição de sobrevivência. Nesse sentido, o acordo pode atuar como catalisador para um salto qualitativo, pressionando empresas e o próprio Estado a reduzir custos sistêmicos e aumentar produtividade.

Porém, a euforia precisa ser temperada. As cotas e salvaguardas introduzidas pela União Europeia na reta final, aceitas pelo Mercosul, mitigam os potenciais benefícios. Ao limitar acesso e ritmar a abertura, reduzem a amplitude dos ganhos comerciais prometidos nas negociações. O resultado mais provável é um acordo com efeitos positivos, porém, permeado de exceções, menos transformadores do que sugeria o discurso inicial.

Tudo isso ocorre em um imprevisível cenário global. O comércio internacional está sendo redesenhado: cadeias de valor se regionalizam, o multilateralismo perde vigor, a globalização se desconfigura e o protecionismo ganha protagonismo. Nesse contexto, um grande acordo de “livre-comércio” (não será tão livre quanto desejado) surge quase como um “estranho no ninho”, concebido em um mundo e implementado em outro. A defasagem temporal, um quarto de século de negociações, fragiliza previsões e aumenta o risco de frustrações quanto à implementação e aos resultados concretos.

Para a Europa, o movimento tem uma dimensão existencial. Diante da perda relativa de influência geopolítica, da competição tecnológica e financeira entre Estados Unidos e China e das tensões internas, o acordo aparece como tentativa de recompor relevância, ampliar mercados e sinalizar protagonismo. É menos comércio e mais um gesto estratégico: não ser mantida à margem das grandes decisões globais.

Para o Brasil, entretanto, o ganho com maior potencial pode ir além do econômico imediato. Há clara aposta em dividendos políticos: a imagem de um país capaz de participar de um grande acordo e se reposicionar no tabuleiro internacional. No entanto, transformar esse capital político em desenvolvimento concreto exigirá reformas estruturais, segurança jurídica, melhoria do ambiente de negócios e políticas industriais não protecionistas voltadas para produtividade.

Em suma, o acordo Mercosul–União Europeia é uma aposta de longo prazo em um mundo avesso a apostas de longo prazo. Ele traz oportunidades reais, mas circunscritas; impõe desafios severos à indústria brasileira, mas também pode ser o choque competitivo de que ela precisa; dá à Europa um fio de protagonismo e ao Brasil a pretensão de um ganho eleitoral imediato.

O risco maior é tratar o Acordo como solução mágica.

SUGESTÃO DE LEITURA: https://revistadiaria.com.br/artigos-e-opiniao/os-3-grandes-desafios-de-conselheiros-e-ceos-na-nova-era-estrategica/

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