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O EXEMPLO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

O estado do Rio de Janeiro está vivendo uma experiência política/administrativa que merece ser observada com atenção, especialmente nesse ano eleitoral. Não porque tenha descoberto uma nova fórmula de administração pública, mas porque está demonstrando que governar com eficiência é muito mais simples do que o sistema político brasileiro faz parecer.

Desde que assumiu interinamente o Governo do Estado, em março de 2026, o desembargador Ricardo Couto iniciou um amplo processo de auditorias na administração direta e indireta. Em poucas semanas, vieram à tona irregularidades administrativas, indícios de funcionários fantasmas e uma estrutura inchada que resultou na exoneração de mais de quatro mil ocupantes de cargos comissionados, trazendo a previsão de economizar R$ 230 milhões a serem destinados à saúde, à educação e à segurança.

Não há qualquer inovação nisso. Ao contrário, o governo estadual se utiliza do que qualquer manual de administração pública recomenda: permanente auditoria, controle interno, revisão de despesas, responsabilização dos gestores e utilização técnica dos recursos humanos. Práticas elementares de governança, adotadas por organizações públicas e privadas comprometidas com eficiência e integridade.

O espantoso é que, no Brasil, o certo passou a ser tratado como excepcional.

A sociedade está tão acostumada à precariedade administrativa que qualquer demonstração de seriedade provoca surpresa. O correto se tornou notícia porque o errado se consolidou como rotina e a boa gestão passou a parecer uma ousadia. Essa é uma constatação a revelar um problema muito maior do que a simples qualidade de um governo, expondo o modelo de incentivos que domina a política brasileira.

Em grande parte do país, a máquina pública deixou de ser instrumento de prestação de serviços à população para se transformar em ativo eleitoral. Cargos comissionados, contratos, nomeações, estruturas administrativas e parte do orçamento passaram a desempenhar funções que extrapolam a gestão pública e se tornaram mecanismos de construção de poder político.

Nesse ambiente, reduzir despesas significa perder influência. Eliminar cargos significa enfraquecer bases eleitorais. Combater privilégios significa contrariar grupos organizados. Exigir critérios técnicos significa limitar espaços de negociação política. No final, a eficiência administrativa passou a ser ameaça.

É justamente por isso que uma gestão interina consegue produzir resultados frequentemente evitados por governos eleitos. O governador interino não depende da manutenção de uma base eleitoral construída por meio da ocupação da máquina pública. Não precisa distribuir cargos para consolidar alianças. Não necessita transformar o orçamento em moeda política, nem preservar ineficientes estruturas para atender compromissos eleitorais. Sua liberdade administrativa decorre da ausência da principal restrição que condiciona boa parte da política brasileira: a necessidade permanente de conquistar ou preservar votos.

Surge, então, um pernicioso paradoxo. O voto, maior patrimônio da democracia, passou a funcionar como obstáculo à boa administração.

Não porque a democracia produza maus governos, mas porque o sistema político construiu incentivos que premiam quem administra interesses e não quem administra resultados.

E o problema não está apenas nos políticos.

Seria intelectualmente desonesto atribuir toda a responsabilidade à classe política. Afinal, políticos respondem aos estímulos produzidos pela própria sociedade. Eles oferecem aquilo que parte significativa do eleitorado está disposta a aceitar.

Enquanto parcelas do eleitorado valorizarem favores pessoais, indicações políticas, benefícios localizados e promessas imediatas acima da competência administrativa, fortalecerão o modelo que produz baixa eficiência, desperdício de recursos e aparelhamento do Estado.

A captura da máquina pública não acontece nos gabinetes. Ela está essencialmente nas urnas.

Nesse cenário, a governança deixa de ser orientada por indicadores de desempenho e passa a obedecer aos calendários eleitorais. E o resultado é mais do que conhecido. Máquinas públicas inchadas, baixa produtividade, serviços precários, elevada carga tributária, sucessivos déficits fiscais e uma população permanentemente frustrada com governos que entregam cada vez menos.

Por tudo isso, a experiência fluminense merece reflexão.

Não porque represente um governo perfeito ou esteja imune a críticas, mas porque evidencia que administrar corretamente não exige soluções extraordinárias. Exige apenas determinação para fazer aquilo que governos eleitos evitam.

Portanto, o desafio do brasileiro não se limita a eleger novos governantes. Envolve, sobretudo, a construção de um eleitorado disposto a premiar eficiência em vez de conveniência, competência em vez de clientelismo e resultados em vez de discursos.


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