O Carnaval que ora se encerra deixa, para a população de Ibicuí, um saldo inédito: pela primeira vez em muitos anos, a apreensão foi menor que a esperança. A localidade, historicamente invadida por automóveis e visitantes durante o feriado, experimentou um novo padrão de organização. A tranquilidade e a beleza natural, antes sufocadas pelo descontrole, deram lugar a um ambiente mais ordeiro.
A iniciativa do poder público de instituir controle de acesso à praia representou mais do que uma medida operacional, simbolizou a introdução de um novo conceito de gestão. Ao organizar a entrada de veículos, a administração demonstrou que é possível compatibilizar turismo com respeito à população local. A circulação tornou-se fluida, não houve registros relevantes de desordem, e o lazer passou a ser administrado, não improvisado. Isso é civilidade. Isso é planejamento.
Contudo, como em todo processo de mudança, surgiram brechas. Ao concentrar o controle apenas sobre os veículos, o sistema foi parcialmente contornado por visitantes que estacionaram ao longo da estrada de acesso a Mangaratiba e utilizaram as escadas para alcançar a praia. O resultado foi a lotação semelhante à dos anos anteriores, ainda que com menor caos viário. A “esperteza” individual, típica de quem busca vantagens à margem da regra, acabou por enfraquecer o espírito da medida.
Essa distorção pode ser enfrentada com serenidade e firmeza. Se o objetivo é proteger Ibicuí e garantir qualidade de vida aos seus moradores, o controle deve abranger também o acesso por pedestres nas escadas. Não se trata de restringir o direito de ir e vir, mas de organizar o uso de um espaço ambientalmente sensível e estruturalmente limitado.
Nesse contexto, a eventual instituição de uma taxa de manutenção por visitante não deve ser encarada como obstáculo, mas como instrumento de sustentabilidade. Diversos destinos turísticos adotam mecanismos semelhantes para equilibrar preservação ambiental, infraestrutura e fluxo de pessoas. Quando bem estruturada, transparente e vinculada à melhoria dos serviços, limpeza, segurança, ordenamento urbano, a cobrança se converte em investimento direto na própria experiência do visitante e na qualidade de vida do morador.
Mangaratiba demonstra que possui capacidade de avançar. O que se viu neste Carnaval é prova de que a gestão pública não ficou refém do improviso ou do populismo. Há uma solução em construção, com excelente potencial ainda pouco explorado: transformar organização em ativo econômico. Um turismo disciplinado, sustentável e financeiramente responsável pode gerar receita, preservar o patrimônio natural e fortalecer o sentimento de pertencimento da comunidade.
Ibicuí não precisa escolher entre receber visitantes e preservar sua identidade. Pode, e deve, fazer ambos, desde que o planejamento seja completo, coerente e aplicado com equidade. O Carnaval de 2026 mostrou que é possível. Agora, cabe aperfeiçoar o modelo, fechar as brechas e consolidar uma política pública que respeite quem vive ali o ano inteiro e, ao mesmo tempo, valorize quem chega para desfrutar de suas belezas.
![]()