Por Eva Costa
O mês de janeiro sempre foi símbolo de recomeços: definições de metas, elaboração de projetos, mudança de rota profissional e pessoal. Socialmente, ele carrega uma narrativa de renovação e otimismo. Porém, essa mesma energia de “recomeçar já” pode gerar sobrecarga mental significativa, caracterizada por ansiedade, autocrítica exacerbada e sensação de insuficiência, um fenômeno que passou a ser identificado com mais clareza nas últimas décadas.
Nesse contexto, o Janeiro Branco assume papel estratégico: não apenas como mais uma campanha de conscientização, mas como um convite à reflexão sobre a saúde mental e sua relação com a vida cotidiana, especialmente em períodos de transição e pressão por desempenho.
Um Retrato Alarmante da Saúde Mental no Brasil
Dados epidemiológicos brasileiros recentes deixam claro que a saúde mental é um tema central para políticas públicas e práticas de cuidado:
- Transtornos depressivos e de ansiedade estão entre os principais motivos de afastamentos do trabalho no Brasil, com mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, mais do que o dobro do observado em 2014 um aumento de mais de 100% em uma década. Os principais diagnósticos são ansiedade e episódios depressivos.
- A prevalência de diagnóstico de depressão entre adultos brasileiros foi estimada em cerca de 10,2% em 2019, de acordo com dados nacionais representativos, indicando que mais de 2 milhões de adultos no país já receberam diagnóstico médico de depressão ao longo da vida.
- Estudos epidemiológicos mais amplos mostram que mais de 26% dos brasileiros relatam diagnóstico de transtorno de ansiedade, com maior proporção entre jovens de 18 a 24 anos (31,6%) e prevalências mais altas entre mulheres e na região Centro-Oeste.
- A atenção da população à saúde mental também é alta: em pesquisa global, 75% dos brasileiros indicaram preocupação com sua saúde mental, números superiores à média global, refletindo maior sensibilidade ao tema, embora ainda existam lacunas em cuidado e tratamento.
Esses dados não apenas revelam uma alta prevalência de sofrimento psíquico na população, mas também a necessidade de abordagens estruturadas que vão além de mensagens simplistas de “positividade”.
A Sobrecarga Invisível de Metas e Pressões Culturais
Janeiro intensifica tendências culturais arraigadas: produtividade sem pausa, comparação social e autocrítica aguda. Psicólogos como Aaron Beck já destacaram que padrões de pensamento rígidos e expectativas irreais estão associados a maior risco de sofrimento emocional. A abordagem cognitivo-comportamental tem mostrado que a forma como interpretamos eventos especialmente aqueles avaliados como “desempenho pessoal” influencia diretamente emoções e comportamentos.
Em paralelo, Christina Maslach, referência no estudo de esgotamento emocional (burnout), observam que pressões contínuas por desempenho, sem recuperação adequada, são fatores centrais em estados de desgaste psicológico profundo, o que se torna particularmente relevante em períodos de planejamento intenso como o início do ano.
Higiene Mental como Prática Estratégica não Apenas Campanha
Diferentemente da noção de “pensar positivo”, higiene mental é um conjunto de práticas de cuidado contínuo, que reconhece limites, regula padrões cognitivos e promove autorregulação emocional. Entre as estratégias com respaldo tanto clínico quanto em saúde pública destacam-se:
- Autoconsciência e monitoramento de sinais de estresse e esgotamento, permitindo ajustes antes que sintomas se agravem.
- Estabelecimento de limites saudáveis, incluindo delimitação de horários de trabalho e uso consciente de tecnologias.
- Planejamento realista de metas, com foco em etapas alcançáveis e revisão contínua de prioridades.
- Hábitos reguladores de saúde física e psicológica, como sono adequado, atividade física e tempo de descanso.
- Fortalecimento de vínculos sociais, que têm efeito protetor comprovado sobre o bem-estar emocional.
Além disso, a busca por ajuda profissional seja por meio de psicoterapia, orientação psicológica ou psiquiátrica deve ser encarada não como fraqueza, mas como uma estratégia de cuidado baseada em evidências.
Cuidar da Mente Sustenta Qualquer Projeto
Não existe projeto sustentável sem uma mente em equilíbrio. Ignacio Martín-Baró psicólogo social que estudou os efeitos do sofrimento psicológico em contextos de violência e pressão social ressaltava que o sofrimento não pode ser visto apenas como uma falha individual, mas como resultado de interações complexas entre o indivíduo e seu ambiente social.
Neste Janeiro Branco, a reflexão não deve se limitar a “pensar positivo” ou a estabelecer metas, mas a forma como cuidamos de nosso mundo interno enquanto navegamos por mudanças, pressões e expectativas.
Cuidar da saúde mental é um investimento estratégico em qualidade de vida, produtividade sustentável e bem-estar coletivo. Ignorar essa dimensão especialmente em um país onde milhões convivem com ansiedade e depressão é subestimar o papel fundamental da mente como base de qualquer realização humana.
Referências
- Ministério da Previdência Social: mais de 440 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, com ansiedade e depressão entre os principais motivos.
- Pesquisa nacional (PNS 2019): 10,2% de prevalência de diagnóstico de depressão em adultos no Brasil.
- Covitel 2023: 26,8% dos brasileiros relatam diagnóstico de transtorno de ansiedade.
- Pesquisa World Mental Health Day: 75% dos brasileiros relatam preocupação com saúde mental.

Eva Costa. Enfermeira Intervencionista I Intensivista I Transição do Cuidado I Mentora de Carreira e Cuidados | Instagram: http://@enfevacosta LinkedIn: Eva Cosa
SUGESTÃO DE LEITURA: E A RECUPERAÇÃO DA MEDICINA BRASILEIRA? https://revistadiaria.com.br/artigos-e-opiniao/e-a-recuperacao-da-medicina-brasileira/
