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NÃO EXISTE PECADO AO SUL DO EQUADOR

A crise que explodiu no Paraguai resgata uma antiga percepção sobre o ambiente moral e institucional do hemisfério sul. Desde os primeiros navegadores e colonizadores europeus, consolidou-se a ideia de que, nos trópicos, as regras que disciplinavam a vida política e econômica no Velho Mundo encontravam terreno mais permissivo. Uma espécie de relativização da moral, em que a transgressão se acomodava aos costumes e a impunidade se confundia com prerrogativa do poder. Uma percepção histórica mantida viva pelos acontecimentos contemporâneos da América Latina.

Por: Luiz Bittencourt

O Paraguai, por exemplo, parecia ter encontrado uma alternativa a esse destino. Ao contrário de boa parte de seus vizinhos, decidiu apostar na produção, na eficiência dos mercados, na disciplina fiscal, no respeito às leis e na credibilidade das instituições. Uma escolha que produziu resultados extraordinários e transformou o país em referência econômica.

Em 2025, o crescimento de 6,6% colocou a economia paraguaia entre os melhores desempenhos da América Latina. A expansão foi sustentada por estabilidade monetária, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e uma agressiva política de atração de investimentos. A conquista do grau de investimento consolidou a percepção internacional de que o Paraguai havia construído um ambiente confiável para o capital.

Parte importante dessa estratégia está sintetizada no chamado “Triple 10” composto de imposto corporativo de 10%, imposto de renda pessoal de 10% e Imposto sobre Valor Agregado (IVA) de 10%. Uma estrutura tributária simples, competitiva e previsível, que contrasta com a complexidade e o peso tributário de outras economias latino-americanas.

A isso se soma uma vantagem estrutural extraordinária: energia abundante, renovável e barata (1/3 do preço da brasileira). Os números fiscais também ilustram a distância entre escolhas políticas. A dívida pública paraguaia encerrou 2025 em aproximadamente 38% do PIB, enquanto a brasileira se aproxima de 83%. Diferença que não é apenas contábil, mas de modelos de Estado, prioridades orçamentárias e compromissos com as gerações futuras.

Entretanto, nas próprias entranhas desse ambiente de prosperidade, articulavam-se relações perigosas entre interesses privados e poder público. Favorecimentos e conflitos de interesse envolvendo o sistema financeiro ameaçaram contaminar justamente aquilo que constituía o maior patrimônio paraguaio: a confiança.

Sem dúvida, países não conquistam credibilidade apenas com crescimento, baixa carga tributária ou equilíbrio fiscal. A confiança depende, sobretudo, da percepção de que as instituições funcionam e cumprem a legislação.

A América Latina conhece demasiadamente bem os efeitos da promiscuidade entre política, negócios e dinheiro. Para piorar, a crise do Paraguai mostra que as práticas de corrupção não se limitam aos países de maior instabilidade econômica e prosperam também em ambientes de crescimento, disciplina fiscal e aparente modernização institucional. 

Diante de tantas manifestações subterrâneas de corrupção espalhadas pelo continente, resta a certeza de que não existe pecado ao sul do Equador.

 

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