“Não fique presa pelo medo”: quando a Câmara precisa ouvir a própria campanha.
Nova campanha publicitária da CLDF contra a violência feminina levanta questionamentos sobre coerência, já que a deputada Paula Belmonte é alvo de ataques por enfrentar denúncias de assédio no Legislativo.
A Câmara Legislativa do Distrito Federal lançou uma nova campanha institucional para combater a violência contra a mulher. A iniciativa, desenvolvida em parceria com a TV Distrital e a Procuradoria Especial da Mulher, da qual a deputada distrital Paula Belmonte é a atual procuradora, tem como objetivo incentivar denúncias e reafirmar o compromisso da Casa com a pauta feminina. A mensagem central da campanha é forte e direta: “Não fique presa pelo medo!”.
Nos corredores da política, no entanto, o lançamento despertou reações e comentários. Isso porque, ironicamente, a própria deputada que lidera a Procuradoria tem sido alvo de ataques e tentativas de deslegitimação dentro da Mesa Diretora da Câmara. Paula Belmonte vem enfrentando, há meses, uma sequência de manobras políticas após sua atuação em casos de denúncias de assédio envolvendo um colega parlamentar.
O contraste entre a mensagem institucional e o tratamento dado à deputada tem chamado atenção. Enquanto a campanha prega coragem e proteção às mulheres que enfrentam abusos e intimidações, dentro da própria Casa a postura da parlamentar tem sido alvo de resistência e retaliação.
O episódio levanta uma reflexão necessária sobre coerência, práticas internas e o real compromisso da instituição com as causas que divulga. Discurso de conveniência? É inegável que campanhas de enfrentamento à violência são fundamentais e cumprem papel pedagógico importante.
No entanto, quando as mensagens públicas não encontram respaldo nas atitudes internas das próprias instituições, o risco é transformar causas legítimas em discursos de conveniência. A defesa das mulheres exige não apenas campanhas publicitárias, mas também coerência política e respeito a quem, de fato, tem coragem de romper o silêncio.
A coincidência de tempos – entre o lançamento da campanha e os episódios de perseguição política contra Paula Belmonte – pode soar até como um recado ambíguo. De um lado, o discurso de proteção; de outro, a prática da intimidação.
No fim das contas, a pergunta que fica é simples e incômoda: será que a Câmara Legislativa está realmente disposta a enfrentar o medo, inclusive o medo de encarar a própria contradição?

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