O DESPREZO PELA COISA PÚBLICA
A eleição nacional de 2026 expõe uma das faces mais degradantes da política brasileira: o desprezo pelo pudor, pela responsabilidade e pelo respeito à coisa pública. Tudo em nome da permanência no poder.
Por: Luiz Bittencourt
Na reta final de um mandato marcado por graves distorções econômicas, o governo transforma a máquina estatal em instrumento de disputa eleitoral, compromete recursos presentes e transfere obrigações para o futuro. Enquanto isso, a indignação nacional ultrapassa os limites da economia e assusta famílias, empresas e analistas. O que aterroriza é a conquista de votos se sobrepondo à obrigação de governar.
Os números dimensionam o desastre. Uma dívida bruta próxima de R$ 11 trilhões, equivalente a 83% do Produto Interno Bruto, uma dívida líquida em torno de R$ 9 trilhões, ou 69% do PIB, e um déficit primário de R$ 82 bilhões em 12 meses compõem um quadro que exige responsabilidade. Ao mesmo tempo, o país enfrenta endividamento elevado das famílias, inadimplência, dificuldades empresariais, baixa produtividade, déficits gigantescos em todas as empresas estatais e deficiências educacionais que limitam o crescimento e perpetuam a vulnerabilidade social.
Diante desse caótico cenário, observa-se a multiplicação de medidas demagógicas sem lastro. A lista reúne indiscriminada ampliação de benefícios sociais, desoneração da gasolina, crédito subsidiado, perdão de dívidas, propostas de transferências financeiras a empreendedores, expansão do Pé-de-Meia, oferta gratuita de medicamentos para emagrecimento, ampliação de programas de renegociação de débitos e de financiamento, redução da jornada de trabalho na escala 6×1 e promessa de transporte público gratuito aos finais de semana.
Esse desespero eleitoreiro produz significativa assimetria. Os ganhos são apresentados no presente, enquanto os custos se espalham pelo futuro, fingindo esquecer que responsabilidade fiscal não é abstração contábil. O dinheiro comprometido hoje deixa de estar disponível amanhã para reais prioridades não demagógicas. E o preço dessa irresponsabilidade será debitado na conta de quem produz e sustenta o país.
Como se isso tudo não bastasse, a competição eleitoral deveria ocorrer dentro de regras que protejam a igualdade entre candidatos, a integridade do processo e o patrimônio coletivo. A proximidade das urnas não suspende a legislação. O calendário eleitoral não significa salvo-conduto para decisões que comprometam o equilíbrio das contas públicas.
Estamos, portanto, diante de um período estarrecedor, em que a lei foi transformada em letra morta. O segundo semestre de 2026 é o período nacional que não deveria ter existido, mas que não pode ser esquecido.


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