O Elo Complexo e a Desconfiança: Brasil e Estados Unidos.
A relação entre Brasil e Estados Unidos é, por natureza, uma tapeçaria tecida com fios de fascínio, assimetria e persistente desconfiança. Reduzir as atuais tensões a uma única figura ou mandato governamental é incorrer em uma análise opaca e simplista. O desencontro entre Brasília e Washington é uma crônica histórica de interesses estruturalmente desalinhados.
A Asimetria Estrutural e o Motor EconômicoO atrito é fundamentalmente estrutural e econômico. Para os EUA, o Brasil é um parceiro secundário dentro de sua vasta agenda global; para o Brasil, os EUA são o principal farol. Essa assimetria dita uma constante tensão entre a busca brasileira por uma “política externa ativa e altiva” (que desafia a hegemonia regional) e o protecionismo americano que impede o pleno acesso do Brasil aos seus mercados. O motor da discórdia é o desejo brasileiro de ser um ator global autônomo, especialmente na sua relação com a China, e a tentativa americana de condicionar essa ascensão.
O Fator Ideológico como Amplificador
A crise é agravada, mas não criada, pela diplomacia ideológica brasileira. As bravatas retóricas, o alinhamento acrítico e as narrativas conspiratórias dos governos recentes atuaram como amplificadores de ruído, em vez de fomentar a confiança. Essa postura, em diferentes gestões, priorizou a afinidade ideológica em detrimento do pragmatismo tradicional, reforçando em Washington a percepção de um parceiro errático e imprevisível.
A Erosão Interna da Confiança e a Dupla Moral
É, no entanto, a instabilidade interna brasileira que mais mina a credibilidade. O Brasil projeta uma imagem de um país cuja democracia está sob tensão:
A Crítica Institucional (O STF):
As alegações de que o Supremo Tribunal Federal (STF) atua com “ativismo judicial” — tomando decisões que se sobrepõem ao Legislativo e Executivo — e as críticas de que “rasga a Constituição” e não respeita o devido processo legal em inquéritos sensíveis, criam uma narrativa de fragilidade institucional. Essa percepção de que a justiça opera fora dos limites, mesmo que para proteger a democracia, enfraquece o status do Brasil como um Estado de Direito sólido.
O Custo Moral da Política Externa: O Brasil enfraquece sua liderança moral e internacional ao manter um padrão duplo em sua política externa. A falta de condenação vocal e consistente a governos ditatoriais (como Venezuela, Nicarágua ou Cuba), sob o pretexto de “não-interferência” ou pragmatismo, gera profunda crítica. Essa tolerância seletiva, que parece ignorar graves violações de direitos humanos em nome de alinhamentos ideológicos ou comerciais, mancha a imagem do país como um defensor confiável da democracia global.
A crise na relação Brasil-EUA é o resultado de uma equação complexa: os desalinhamentos econômicos estruturais e a assimetria de poder são agravados pelo ruído diplomático e pela instabilidade institucional interna, que confirmam a Washington que, no fim das contas, o Brasil permanece um enigma a ser tratado com cautela pragmática.
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