A queda de 7% nas exportações brasileiras para os Estados Unidos entre agosto e setembro, e de 34% em relação a julho, evidencia de forma concreta o impacto inicial do chamado “tarifaço” imposto por Washington sobre produtos brasileiros. O movimento representa uma perda expressiva de participação no principal mercado de destino das exportações de maior valor agregado do país — especialmente manufaturados, semimanufaturados e produtos com maior conteúdo tecnológico.
O dado mais preocupante, contudo, é que não houve compensação por parte de outros parceiros estratégicos. As exportações para China, principal parceiro comercial do Brasil e ainda que demandante de commodities, permaneceram estáveis, indicando que a perda de mercado norte-americano não foi acompanhada por um redirecionamento bem-sucedido das vendas externas. Em outras palavras, o Brasil não conseguiu converter a retração nos EUA em ganhos em outros mercados, como se esperava que ocorresse diante de uma guerra tarifária.
Esse quadro reforça a percepção de que o impacto do tarifaço chegou sem que o Brasil conseguisse se definir por uma estratégia. A insegurança causada pela ausência de uma posição coordenada entre os ministérios da Fazenda, Relações Exteriores e Indústria deixa o país em desvantagem diante de um interlocutor norte-americano experiente e de perfil duro: o senador Marco Rubio, escolhido como principal negociador dos EUA. Rubio é conhecido por adotar postura rigorosa em defesa dos interesses norte-americanos, especialmente em temas envolvendo não somente competitividade, segurança econômica e práticas industriais, mas também direitos humanos e liberdade de expressão.
Enquanto isso, o Brasil procura identificar o que será posto sobre a mesa e, provavelmente por isso, ainda não construiu uma proposta de contrapartida ou de renegociação, seguindo nebuloso sobre como pretende proteger setores mais atingidos — como o de autopeças, químicos, calçados e metalmecânico — nem sobre quais concessões são imperativas. O risco é que essa demora em reagir transforme uma queda conjuntural em perda estrutural de mercado, com danos de médio prazo sobre o emprego industrial e a balança comercial.
Em síntese, a retração das exportações brasileiras para os EUA revela que o tarifaço deixou de ser uma ameaça e passou a ser uma realidade econômica. O país precisa agir rapidamente: definir sua estratégia de negociação, alinhar discurso político e técnico, e colocar em prática as medidas emergenciais de apoio aos setores afetados. A prolongada inércia pode custar caro ao comércio exterior brasileiro, num cenário de crescente competição global e protecionismo seletivo.
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