Um olhar um pouco mais atento aos desdobramentos do tarifaço imposto ao Brasil pelos EUA revela seu indiscriminado uso político pelo Brasil.
Revela, também, as duas principais motivações para a decisão norte-americana.
A primeira é o indiscutível protecionismo comercial do Brasil.
Há décadas o Brasil se declara em desenvolvimento para aplicar barreiras alfandegárias e medidas tarifárias de proteção à indústria, especialmente para os setores automotivo, autopeças, eletrônicos, químicos e têxteis.
A segunda e mais incisiva motivação é a insistente articulação brasileira para destituir o dólar americano do papel de reserva internacional.
Negociado e incluído no acordo de Bretton Woods, o dólar americano tem o papel de reserva internacional desde 1944, no final da Segunda Guerra Mundial, a partir de quando os EUA financiaram a recuperação econômica do ocidente. Alterar esse acordo e desdolarizar o comércio internacional, excluindo os EUA das negociações, é declaração de guerra aos EUA.
Por ingenuidade, ignorância, ou por incapacidade de avaliar corretamente a dimensão das forças envolvidas no processo, o Brasil vem constantemente se utilizando da visibilidade que as reuniões do grupo BRICS lhe oferece para propor a desdolarização do comércio internacional. Nenhum outro membro do grupo BRICS tem se manifestado sobre essa proposta, a não ser o Brasil.
Esse é o real motivo para que o Brasil seja alvo de tarifa diferenciada de 50%, motivo também pelo qual os EUA não têm demonstrado disposição para negociar e, possivelmente, não negociará. Por exemplo, o governo norte-americano ignorou a carta enviada pelo governo brasileiro em maio passado e, após o envio na última semana da carta ao governo brasileiro, o governo norte-americano não aceitou, até hoje, qualquer contato com representante do governo brasileiro.
Por outro lado, tem ocorrido negociações do governo dos EUA com representantes de alguns países, até com redução das tarifas inicialmente propostas. Sem dúvida, e por razões que somente o governo brasileiro pode explicar, a imposição de tarifas ao Brasil difere, em muito, do tarifaço global imposto pelo governo dos EUA.
Entretanto, por aqui, o oportunismo eleitoral tem vendido o tarifaço norte-americano como medida exclusivamente política, levando a uma aposta kamikaze de reciprocidade, com incalculáveis prejuízos para a economia nacional.
Enquanto a declaração de guerra for mantida, o futuro ficará imprevisível.
