Ao longo de anos de artigos, estudos e seminários, tenho chamado a atenção para um equívoco recorrente entre parte significativa do empresariado brasileiro: tratar a política como um tema secundário ou irrelevante para os negócios. Esse distanciamento ocorre em todos os níveis: municipal, estadual, nacional e internacional.
Muitos acompanham o tema apenas por interesse social ou pessoal, frequentemente motivados pela percepção de que a política opera em um ambiente de ética relativa ou de conflitos pouco transparentes.
No entanto, ignorar a política é, em si, uma decisão estratégica equivocada. As decisões políticas moldam regulações, cadeias produtivas, comércio internacional, tributos, investimentos e acesso a mercados. Em um cenário marcado pela nova geopolítica onde disputas por tecnologia, energia, dados e alimentos redefinem alianças e fluxos econômicos o impacto das decisões políticas sobre os negócios tornou-se ainda mais direto e profundo.
Grandes corporações globais compreenderam essa realidade há décadas. Multinacionais mantêm estruturas dedicadas ao monitoramento do ambiente político e geopolítico justamente por reconhecerem que mudanças institucionais e estratégicas dos Estados podem alterar radicalmente oportunidades e riscos empresariais.
Minha própria experiência reforçou essa percepção. Durante minha passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, enquanto estudava na Universidade de Brasília (UnB), administrativo de uma multinacional e posteriormente como professor em cursos de pós-graduação, observei como o tema da geopolítica permanece subestimado no Brasil tanto no meio acadêmico quanto no ambiente empresarial. O relativo isolamento histórico do país e sua posição periférica no sistema internacional contribuíram para essa lacuna.
Por essa razão, tenho insistido de forma crescente: planejamento e gestão, em qualquer nível organizacional, devem começar pela leitura do ambiente geopolítico. Estratégias que ignoram esse fator não podem ser consideradas verdadeiramente estratégicas. São, na prática, planos operacionais de baixa qualidade e essa responsabilidade pertence a toda a organização, do conselho de administração ao chão de fábrica.
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Hélio Mendes- Palestrante, consultor empresarial e político. Autor de Planejamento Estratégico Reverso e Gestão Reversa. Curso de conselheiro pelo IBGC e ex-Secretário de Planejamento e Meio Ambiente de Uberlândia (MG).