A fotografia social revelada pelo Índice de Progresso Social (IPS) na região conhecida como Costa Verde expõe um paradoxo inquietante: riqueza disponível e bem-estar escasso.
Em uma região marcada por belezas naturais, turismo consolidado e expressiva arrecadação, sobretudo via royalties de petróleo, quatro dos cinco municípios que a compõem exibem alguns dos piores indicadores de qualidade de vida do estado do Rio de Janeiro. Angra dos Reis (71º lugar no IPS do estado), Itaguaí (72º lugar no IPS do estado), Mangaratiba (86º lugar no IPS do estado) e Paraty (87º lugar no IPS do estado), apesar de PIB per capita elevado, figuram nas últimas posições do IPS fluminense, evidenciando um abismo entre capacidade econômica e efetividade social.
O diagnóstico é extremamente desconfortável. Por exemplo, entre os 92 municípios do estado, Mangaratiba é superada por 85 municípios.
O contraponto é Rio Claro, que, mesmo com o menor PIB per capita da região, alcança a 12ª posição estadual no IPS. O dado é emblemático: qualidade de vida não é produto automático de riqueza, mas de competente gestão pública, prioridades bem definidas e políticas voltadas ao cidadão. Onde os recursos são escassos, mas bem administrados, os resultados sociais aparecem. Onde sobram recursos, mas falta governança, planejamento e compromisso com políticas estruturantes, os indicadores colapsam.
Os quatro municípios pior avaliados compartilham algumas graves fragilidades: alta mortalidade entre jovens e adultos, reprovação no ensino médio, poucas oportunidades econômicas, deficiências no abastecimento de água, elevada vulnerabilidade social, violência contra mulheres e assassinatos de jovens. Trata-se de um retrato de persistente exclusão, que não pode ser explicado apenas por limitações orçamentárias, pois estas claramente não existem. O problema é de escolha política, de modelo de gestão e de ausência de projetos consistentes de desenvolvimento humano.
Os royalties do petróleo, longe de se converterem em alavanca para educação de qualidade, saúde eficiente, infraestrutura básica e proteção social, parecem ter alimentado ciclos de dependência, improviso e imediatismo. Em vez de induzirem transformação estrutural, reforçaram a ilusão de prosperidade automática, sem exigir reformas administrativas, inovação na gestão pública ou avaliação rigorosa de resultados.
A Costa Verde, que poderia ser referência nacional em turismo sustentável, desenvolvimento regional integrado e qualidade de vida, tornou-se exemplo do risco de dissociar política econômica de política social. O caso de Rio Claro demonstra que não se trata de fatalismo geográfico ou cultural, mas de governança. Quando o foco está no cidadão, mesmo municípios pequenos, com poucos recursos conseguem avançar.
A persistência desse quadro indica que, para quatro dos cinco municípios da região, a melhora do bem-estar social deixou de ser apenas um desafio e passou a ser um objetivo sistematicamente negligenciado. Reverter essa trajetória exige romper com a lógica do improviso, submeter políticas públicas a métricas de desempenho social e tratar educação, saúde, segurança e inclusão produtiva como investimentos estratégicos, não como despesas contingentes.
A Costa Verde não carece de recursos, carece de projeto. E sem projeto, riqueza alguma se converte em resultado.

SUGESTÃO DE LEITURA: QUALIDADE DE VIDA EM BARRA DO PIRAÍ https://revistadiaria.com.br/brasil/direto-de-barra-do-pirai/qualidade-de-vida-em-barra-do-pirai/
