Início Artigos e Opinião SEMELHANÇAS ENTRE LANÇAR FOGUETES E FORMAR MÉDICOS

SEMELHANÇAS ENTRE LANÇAR FOGUETES E FORMAR MÉDICOS

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Terceirização não é virtude nem vício. É instrumento. Porém, pode se transformar em uma danosa distorção quando é pensada exclusivamente como mecanismo de redução de custos, e não como estratégia para ampliar eficiência e garantir qualidade. A diferença entre sucesso e fracasso da terceirização está no rigor do controle e no compromisso com o resultado.

Essa diferença pode ser percebida em uma entrevista publicada nesse domingo pelo Estadão com um pesquisador brasileiro da National Aeronautics and Space Administration (NASA), ao revelar que a maior parte dos lançamentos da agência é realizada por empresas privadas contratadas. Resta óbvio que não se trata apenas de economizar recursos públicos em um modelo de terceirização que permite distribuir riscos, agregar cérebros e acelerar soluções tecnológicas. Empresas como a SpaceX e a Boeing, por exemplo, assumem etapas críticas do processo, sob contratos rígidos, metas claras e implacável controle de qualidade.

A NASA não terceiriza responsabilidade. Terceiriza execução. A responsabilidade pelo resultado permanece integralmente pública. Cada componente, cada teste, cada protocolo é submetido a rigorosas auditorias e certificações. O fracasso, em um lançamento espacial, não significa apenas prejuízo financeiro; significa risco à vida humana e à reputação científica. Por isso, a terceirização só funciona porque há governança técnica, critérios objetivos e compromisso institucional com excelência.

Nesse mesmo domingo, outra reportagem do Estadão expôs, em contrapartida, um outro modelo de terceirização: o das escolas médicas brasileiras, das quais cerca de 80% estão na iniciativa privada. Aqui, o panorama crítico para o ensino médico no Brasil, recentemente divulgado pelo Enamed, sinaliza que a lógica predominante é outra. A acelerada expansão de cursos atendeu a demanda do mercado de estudantes, que podem pagar mensalidades elevadas e desejam o diploma, mas grande parte deles deixam a exigência de qualidade em segundo plano. O resultado não poderia deixar de ser preocupante.

A diferença essencial entre os dois casos, NASA e o Estado brasileiro que outorga os cursos de medicina, está na gestão e no controle de qualidade. Na cadeia espacial, o “cliente final”, a sociedade, é protegido por filtros técnicos rigorosos. Na cadeia da formação médica brasileira, o “cliente final”, a população, não tem a devida proteção pelo risco da inapropriada aferição. Risco esse nada simbólico ao se traduzir em diagnósticos equivocados, tratamentos inadequados e mortes evitáveis.

Nesse caso, há uma evidente dicotomia entre dois mercados que envolvem a formação médica. O mercado educacional pode se satisfazer com a atual qualidade do produto, enquanto o mercado da saúde, na ponta final da cadeia (a população), exige real competência. A compatibilização dessas duas pontas depende exclusivamente do Estado. É ele quem autoriza cursos, define critérios, avalia desempenho e tem a prerrogativa de fechar portas à mediocridade. Da mesma forma que a NASA, o Estado não terceiriza responsabilidade. Terceiriza a formação médica. A responsabilidade pela qualidade do produto, os profissionais, permanece com o Estado.

Por outro lado, obter lucro não é pecado. Ao contrário, pode ser motor de inovação e expansão de oferta. O pecado está em dissociar lucro de qualidade. A experiência da NASA demonstra que é possível harmonizar interesse privado e excelência técnica, desde que o ente público exerça plenamente sua função reguladora e fiscalizadora.

Portanto, a diferença entre a NASA e o Estado brasileiro é exclusivamente gerencial. Não se trata de incapacidade congênita, mas de prioridade política. Se uma agência pública consegue terceirizar com eficiência porque exige resultado, controla a qualidade e pune falhas, o Estado brasileiro também pode fazê-lo na formação médica, estabelecendo rigorosas avaliações nacionais, ampliando inspeções, vinculando autorização de funcionamento a concretos indicadores de desempenho e impedindo que o despreparo chegue ao mercado.

No geral, há entendimento de que terceirizar é transferir tarefas. Porém quando o compromisso com a qualidade e com o resultado é inegociável, o modelo prospera. De outra forma, quando o foco exclusivo é a expansão numérica ou o imediato retorno financeiro, o risco é transferido na cadeia e recai sobre a sociedade.

Fica claro que a distorção não é inerente à terceirização. É consequência da ausência de compromisso com a qualidade e com o resultado e, portanto, há solução para a terceirização brasileira.

SUGESTÃO DE LEITURA: QUEM FICARÁ COM O VALOR DO CAFÉ. A BATALHA QUE AMAEAÇA AS COOPERATIVAS https://revistadiaria.com.br/artigos-e-opiniao/quem-ficara-com-o-valor-do-cafe-a-batalha-que-ameaca-as-cooperativas/