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A TECNOLOGIA QUE MUDOU A INDÚSTRIA BRASILEIRA DO COURO

A trajetória do couro é fascinante. Poucos produtos carregam uma história tão antiga e, ao mesmo tempo, tão atual. A pele do animal caçado é testemunha do começo de tudo. O Velho Testamento registra referências ao couro como dádiva divina, anteriores à Cristo. Não tendo sido inventado, mas descoberto e aperfeiçoado, o couro ocupou espaços na sobrevivência como instrumento de proteção contra o frio, vento e chuva, serviu de tenda e de vestimenta. Acompanhando a trajetória das civilizações, a pele animal foi do rudimento ao luxo e escreveu a história de um dos mais antigos e eficientes processos de reciclagem.

No Brasil, o couro ganhou características próprias e permitiu que sua indústria construísse uma história de sucesso.

O caminho percorrido pelo couro brasileiro começa no período colonial com o gado trazido pelos portugueses para abastecer, com carne, força de tração e animais de trabalho, os engenhos de açúcar. A produção nacional de couro conquistou importância econômica nos séculos XVII e XVIII, ao ampliar e expandir o rebanho para diversas regiões, sobretudo o estado do Rio Grande do Sul, o embrião da indústria brasileira de curtumes.

No século XIX surgem os primeiros estabelecimentos especializados em curtimento de couros, entrando o século XX com a incorporação de máquinas, produtos químicos, novas técnicas de curtimento, especialização da mão-de-obra e produção em escala industrial. Industrialização que passa a movimentar pecuária, frigoríficos, curtumes, indústria química, máquinas, transporte, calçados, móveis e comércio exterior.

A partir da segunda metade do século XX o Rio Grande do Sul surge como o motor da industrialização de peles e o Brasil começa a ganhar relevância no mercado internacional do couro. O sul do país criou, em 1946, a Escola de Calçados de Novo Hamburgo e, em 1965, a Escola de Curtimento de Estância Velha, únicas na América Latina, um marco na formação de técnicos em couro e em calçados. A mão-de-obra qualificada impulsionou a cadeia produtiva e expandiu a participação de seus produtos no mercado internacional. O país, então, se tornou líder mundial em couro e vice-líder em calçados.

Nesse mesmo período, o Brasil realizou as mais célebres importações da Índia de gado Nelore, revolucionando a pecuária nacional e tornando essa raça predominante no rebanho nacional. Ainda que sua adaptação tenha sido um sucesso, tanto para a indústria da carne quanto para a indústria do couro, a existência do cupim (porção do couro em formato de bolsa) inviabilizava o processamento do couro inteiro, ao provocar buracos e danos na pele, na região do cupim. Como consequência, a abundante matéria-prima brasileira atendia a todos os outros segmentos, mas permanecia sem acesso ao emergente mercado de estofamento, demandante de couro inteiro.

O desafio para ultrapassar as limitações da commodity e acessar esse mercado com a pele inteira do gado Nelore foi enfrentado por uma indústria de couro de Nova Esperança do Sul, existente desde 1915 e transmitida de geração para geração em linhagem de artesãos. Reestruturada, em 1996, para curtume de estofamento, a empresa transformou obstáculo em oportunidade e desenvolveu a tecnologia que permitiu ao mundo submeter a pele inteira do Nelore aos processos de curtimento, sem causar danos ao couro. O couro brasileiro passou a acessar um segmento industrial em franco crescimento e o Brasil a exportar a tecnologia embarcada no couro.

Essa história representa muito mais do que o sucesso de uma empresa. Representa a capacidade brasileira de transformar um problema em vantagem competitiva.

A partir daí a indústria brasileira de curtumes se torna fornecedora de matéria-prima de alta qualidade, transforma-se em global player lastreada na capacitação técnica, na abundância de matéria-prima, na visão de negócio, e alcança o topo da participação no mercado internacional ao exportar, em 2014, o valor recorde de US$ 2,9 bilhões.

O Brasil foi capaz de transformar aquilo que tinha em aquilo que o mundo queria.

 

 


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