Não se trata de um desabafo. O que compartilho aqui é o relato fiel das observações que fiz durante a internação de minha esposa, por três semanas, em dois hospitais da rede privada do município do Rio de Janeiro. A experiência, que deveria inspirar confiança e tranquilidade, revelou uma rotina hospitalar dominada por excessiva burocracia, subdimensionamento de equipes e, principalmente, pela inversão de prioridades no cuidado com o paciente.
Logo nos primeiros dias, chamou-me a atenção o volume de tempo que os profissionais dedicam a preencher formulários, digitar informações em sistemas, anotar em papéis e conversar entre si. Em média, 90% do tempo de trabalho parecia ser consumido com registros e burocracias, restando ínfimos 10% para o atendimento efetivo aos pacientes. A prioridade não é o cuidado, mas o registro do cuidado.
Quando algum membro da equipe é chamado para atender uma necessidade imediata, a burocracia obriga quase sempre a mesma resposta: “Já vou lá”, expressão que pode significar uma espera de minutos, ou, como presenciei, de até algumas horas. A burocracia se sobrepõe à urgência humana, banalizando o sofrimento.
Esse quadro se agrava com a reduzida presença de médicos. Os poucos permanecem ocupados na emergência, o que retarda a atuação no andar da internação. Quando um paciente sente dor, extrema ou não, e necessita de ajuste na prescrição, até mesmo algo simples como um analgésico, a equipe de enfermagem, impedida de agir sem nova autorização médica (como manda o protocolo), precisa aguardar o contato com o médico. Esse contato, não raro, leva horas. É desesperador.
Outro ponto que surpreende é a insensibilidade no atendimento de apoio. Profissionais como psicólogos, terapeutas, dentistas, etc. se aproximam do paciente em momentos inadequados, às vezes logo após uma noite de insônia, muita dor e conseguem, por algum motivo, dormir um pouco. Falam alto, tentam “motivar” o paciente, quando o que ele mais precisa é descansar. É a rotina institucional impondo-se sobre o bom senso e a empatia.
Ao fim dessas três semanas, ficou evidente que o sistema, o procedimento e o protocolo tornaram-se mais importantes que o paciente. O foco não está em quem sofre, mas em cumprir formalidades, preencher campos, registrar cada detalhe, mesmo que isso custe o essencial cuidado humano.
Talvez este relato seja interpretado como fruto de um “estado emocional abalado”, como costuma acontecer quando se critica instituições financeiramente bem-sucedidas. Mas não se trata disso. É apenas a constatação de que, se esse padrão de atendimento estiver sendo reproduzido em outros hospitais, o paciente carioca precisa, de fato, da piedade divina.
Mesmo porque, ao fim de tudo, o paciente é a razão da existência do hospital. E quando ele deixa de ser a prioridade, algo fundamental se perdeu no caminho.
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