George Orwell não escreveu A Revolução dos Bichos como uma fábula sobre o passado, mas como um manual de sobrevivência para o futuro.
O livro, com seu título original Animal Farm, conta a história de animais que se rebelam contra seus opressores humanos, sonhando com uma utopia de igualdade e liberdade. Mas a utopia, como uma promessa de político em palanque, logo se esfarela. E se olharmos com atenção para o nosso quintal, veremos que a fazenda de Orwell não é tão distante assim. Ela é, na verdade, um retrato sombrio e familiar da nossa paisagem política brasileira.
A revolta começa, como em tantas histórias, com o povo cansado. O fazendeiro Sr. Jones era a velha ordem, a corrupção visível, a opressão descarada. Sua queda, na crônica de Orwell, é o clamor popular que se transforma em grito.
No Brasil, essa queda já teve diversos nomes: foi o “fora isso, fora aquilo”, a “faxina ética”, a “mudança radical”. O povo acreditou que a hora da redenção tinha chegado. E a nova elite, a dos “quatro pés”, tomou o poder com promessas de um mundo onde todos seriam iguais. Mas o poder tem um efeito corrosivo.
Os porcos, que lideraram a revolução, logo revelaram sua verdadeira natureza. A máxima “quatro pernas bom, duas pernas ruim” foi alterada sutilmente para “quatro pernas bom, duas pernas melhor”. E é aqui que a analogia se torna dolorosamente precisa. No nosso canteiro de obras, as promessas de austeridade e de combate à corrupção se transformam em privilégios para a nova casta.
Os novos “salários” e “aposentadorias” são a prova de que a igualdade foi a primeira mentira a ser reescrita. O idealismo dos slogans populares se esvai, dando lugar a uma retórica vazia que justifica o injustificável.O moinho de vento, a grande promessa de prosperidade da fazenda, é a metáfora perfeita para nossos projetos megalomaníacos. Ele é construído e derrubado, mas o povo continua a trabalhar sem ver os benefícios.
Assim são as nossas obras, os planos econômicos, as reformas. São construídos sobre a suor e o sacrifício de Boxer, o cavalo incansável que só sabia dizer “eu vou trabalhar mais”. Ele representa o povo brasileiro, o trabalhador que acredita, que se mata de trabalhar pelo bem maior, até que, quando não é mais útil, é descartado ou esquecido. E enquanto os porcos controlam a narrativa, culpando um inimigo invisível, a ovelha segue balindo “quatro pernas bom”, sem questionar.
O velho jumento Benjamim vê tudo com um cinismo cansado, sabendo que as coisas nunca mudam, que “a vida continua a mesma”. Ele é a figura do intelectual desiludido, que entende o jogo, mas se recusa a participar ou a lutar. No final da história, a cena é de uma crueldade poética.
Os animais, do lado de fora da casa da fazenda, olham os porcos e os humanos sentados à mesa, brindando. Eles não conseguem mais diferenciar quem é quem. E assim, a utopia morre, não com uma bala, mas com um brinde.
A revolução, que nasceu do desejo de justiça, se tornou um espelho da própria opressão que derrubou. E nessa fazenda-Brasil, o show continua, com novos personagens, mas com o mesmo jugo da opressão de sempre.
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