Há prédios que não caem sozinhos. Quando desmoronam, levam junto lembranças, encontros, histórias que não cabem no concreto.
Neste domingo, 25, Brasília assiste à implosão do Torre Palace. E, com ele, implode também um pedaço da memória afetiva de quem viveu seus melhores anos entre aquelas paredes.
Inaugurado em 1973, o Torre Palace nasceu imponente. Quatorze andares, cento e quarenta apartamentos e a promessa de luxo em uma capital que ainda aprendia a ser cidade. No último andar, a lendária Boate Nepenta iluminava as noites brasilienses. Ali, a juventude se encontrava. Não havia pressa, não havia telas. Havia música, conversa, dança e aquele sentimento raro de pertencimento.
Frequentar a Nepenta era mais do que sair à noite. Era fazer parte. Era cruzar olhares, criar histórias, ouvir bons DJs e viver um tempo em que se respeitava o outro; e o tempo. A caipirinha, o Campari, a Cuba Libre… o riso fácil. Uma juventude que existia inteira, sem notificações, sem filtros.
No térreo, os aromas da comida libanesa anunciavam encontros mais longos. A mesa reunia gente, histórias e afetos.
O Torre Palace pulsava vida.
Depois, como acontece com tantas coisas boas, veio o silêncio. O luxo deu lugar ao abandono. O prédio ficou ali, parado no tempo, lembrando diariamente que até os ícones podem ser esquecidos. Invasões, moradores de rua, destruição. O concreto resistiu mais do que a memória oficial, mas nunca venceu a memória de quem viveu.


Agora, a implosão se aproxima. O barulho será forte. Mas maior ainda é a emoção. Não é só um hotel que cai; é um tempo que se despede. Entre a poeira e o vazio, nasce também a esperança. Que no lugar do que foi esquecido se erga algo digno da cidade que Brasília se tornou.
Amanhã será o dia. E quem viveu, saberá exatamente o que está caindo.
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