A FERROVIA E A VALORIZAÇÃO DO TERRITÓRIO BARRENSE
A recente inauguração do complexo viário de Barra do Piraí, celebrada em um concorrido evento político, representa, na sua essência, a materialização de um tardio retorno financeiro pela intensiva utilização do território barrense, ao longo de três décadas. Avaliado em R$ 146 milhões, o investimento realizado pela MRS Logística, como contrapartida pela concessão ferroviária expõe um ganho concreto, mas não consegue se esquivar de inevitáveis questionamentos.
O primeiro deles surge de um equívoco observado durante a cerimônia no discurso do Ministro dos Transportes. Ao classificar o município como o maior entroncamento ferroviário da América Latina, o Ministro ignorou a realidade. Barra do Piraí já ocupou esse posto no passado, quando sua malha ferroviária desempenhava papel estratégico na integração regional. A participação do município no sistema ferroviário foi reduzida a função passiva de assistir ao fluxo contínuo de minério de ferro cruzando seu território, sem que isso se traduza, de forma proporcional, em desenvolvimento local.
E essa passividade ocorre em um frágil modelo de compensação. Quando se calcula o valor anual representado pelo montante de R$ 146 milhões, em cerca de 30 anos de exploração ferroviária, chega-se a uma média anual de aproximadamente R$ 4,9 milhões. Um valor extremamente modesto, especialmente quando comparado a outras fontes de receita. Por exemplo, apenas em 2025, Barra do Piraí arrecadou cerca de R$ 46 milhões em royalties da indústria de petróleo e gás, quase dez vezes mais do que a média anual proporcionada pela utilização ferroviária.
Essa disparidade levanta uma questão sobre a valorização do território barrense. O que se vê é uma contrapartida exageradamente limitada quando analisada sob uma perspectiva de longo prazo e de potencial econômico.
Ainda que o retorno pontual com obras compensatórias possa parecer relevante, o ganho qualificado estaria na criação de condições para que produtos locais alcançassem mercados consumidores de maior escala, e na viabilização do transporte de passageiros, conectando Barra do Piraí a grandes centros como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Trata-se de uma parceria estruturada sob bases estratégicas, e não apenas compensatórias, geradoras de efeitos multiplicadores sobre a economia local.
Sem dúvida, o complexo viário recém-inaugurado cumpre um importante papel na mobilidade urbana e na reorganização do tráfego. No entanto, ele também simboliza um modelo de relação aquém do potencial disponível e das necessidades do município. A obra encerra um ciclo de compensação, mas não inaugura, por si só, uma nova fase de desenvolvimento.
De todo modo e se nada se alterar, fica a certeza de que o território barrense está subvalorizado.

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