A INUSITADA INCONSISTÊNCIA ELEITORAL DO BRASILEIRO
Nunca, na história política brasileira, o eleitor foi tão imprevisível, tão contraditório, tão inconsistente e tão inseguro quanto nessas eleições de 2026. O primeiro turno produziu uma fotografia nítida da orientação política do país. O segundo, poucas semanas depois, embaralhou essa imagem e deixou uma pergunta sem resposta: o que, afinal, mudou na cabeça do eleitor em apenas três semanas?
Por Luiz Bittencourt
No primeiro turno, o brasileiro vestiu verde, amarelo e concentrou sua preferência em uma determinada corrente da política nacional. Essa orientação se refletiu na composição do Congresso, com uma representação majoritária desse campo político, que alcançou aproximadamente 60% das cadeiras em disputa no Senado Federal e 55% na Câmara dos Deputados. Na corrida presidencial, o mesmo campo também demonstrou força, colocando seu representante em posição de liderança na disputa.
O resultado desenhava uma direção política. A escolha para o Legislativo indicava uma preferência e a disputa presidencial, por sua vez, caminhava nesse mesmo ambiente.
O inesperado, porém, surpreendeu o próprio eleitorado.
Três semanas mais tarde, no segundo turno, o eleitor brasileiro produziu uma radical mudança na disputa presidencial. A preferência que havia se manifestado com ênfase na composição do Congresso não se reproduziu na escolha para o Executivo. O eleitor acabou escolhendo, para a Presidência, um representante de campo político distinto.
A contradição se tornou, então, o ponto central desse pleito.
Como explicar que o mesmo eleitorado tenha sinalizado uma direção para o Legislativo e, em tão curto intervalo, escolhido outra para o Executivo? Como conciliar a formação de uma maioria parlamentar identificada com determinada corrente política com uma decisão presidencial que não acompanhou essa tendência? O que explicaria uma mudança de comportamento tão drástica, corrompendo integralmente a lógica?
Escolhas distintas são possíveis e a independência do voto é uma virtude. Porém, o enigma do 2º turno de 2026 está na dimensão da mudança e na velocidade com que ela ocorreu. O intervalo de poucas semanas surpreendeu o brasileiro, até porque as pesquisas de intenção de voto, instrumentos importantes para compreender tendências eleitorais, também não conseguiram antecipar a dimensão dessa rearrumação. Ainda que não sejam capazes de prever com exatidão o comportamento de cada eleitor, as pesquisas sinalizam tendências com um certo grau de confiabilidade. Então as pesquisas erraram? Provavelmente não. Acontece que é difícil encontrar explicação plausível para o que ocorreu no 2º turno.
A perplexidade que emerge do 2º turno cria dúvidas, provavelmente indecifráveis. O que leva milhões de eleitores a escolherem uma determinada orientação política para o Congresso e para o Executivo e, poucas semanas depois, optarem por outra para a Presidência? O eleitor brasileiro foi contraditório, inconsistente ou simplesmente se esqueceu da convicção que o levou à urna no primeiro turno?


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