NUVEM NEGRA SOBRE A PRODUÇÃO
Há uma nuvem negra pairando sobre o Brasil. Institucionalmente debilitado e com o judiciário em xeque, percebe-se adicionalmente no país uma esquizofrênica tentativa de jogar a pá de cal sobre o trabalho, sobre a produção.
Ameaçado por um ambiente de baixa produtividade, elevado endividamento de famílias e empresas, estratosférico cenário de recuperações judiciais e astronômica dívida pública, o Brasil precisa produzir mais, investir mais, recuperar sua capacidade competitiva e criar condições para que empresas e trabalhadores voltem a prosperar. Pois é nesse cenário que a classe política articula uma agenda que favorece a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, acompanhada de uma expansão nos benefícios do Bolsa Família. Joga o país, sem qualquer cerimônia, em uma disputa entre o ócio remunerado e a produção que o sustenta.
A questão da jornada de trabalho tem sido debatida, sobretudo por ser prerrogativa do mercado e ainda por ter sido decidida pela classe política sem avaliar os impactos na produtividade, nos custos, na competitividade, no nível de emprego e na capacidade de investimentos. Escolha exclusivamente populista.
Ao mesmo tempo, o governo anunciou, em mais uma decisão populista, que o Bolsa Família terá, a partir de outubro, um reajuste de 15%. Mais uma conta a ser paga por quem produz.
O Brasil já enfrenta desafios fiscais consideráveis, não havendo espaço para erros econômicos. Cada nova obrigação imposta à atividade produtiva precisa ser confrontada com seus efeitos sobre emprego, preços, investimento e competitividade. Da mesma forma, cada política de transferência de renda precisa ser também analisada por sua capacidade de promover autonomia e mobilidade econômica.
O desenvolvimento econômico não é uma disputa entre quem trabalha e quem precisa de proteção social. O desafio brasileiro é construir um sistema no qual trabalhar volte a valer a pena, empreender seja possível, contratar seja sustentável e receber assistência seja uma etapa de proteção, e não o destino permanente de milhões de brasileiros.
As recentes decisões se caracterizam como exclusivamente eleitoreiras, ao mesmo tempo em que a classe política finge desconhecer que não há sociedade que consiga distribuir aquilo que não produz. Riqueza não nasce do populismo. Nasce da combinação entre trabalho, capital, conhecimento, produtividade, investimento e capacidade empresarial.
Nesse Brasil atual, produção é problema e dependência é solução. A nuvem negra não é apenas uma impressão.


Você precisa fazer login para comentar.