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POR QUE NÃO UM ESTELIONATO ELEITORAL?

O cenário pós-eleitoral brasileiro é de extrema preocupação. Encerrada a disputa pelo poder, começa a se tornar perceptível a dimensão da irresponsabilidade contida nas decisões bilionárias tomadas na reta final da campanha, destinadas a produzir uma artificial sensação de bem-estar e assegurar a permanência no poder. 

Por: Luiz Bittencourt

O comprometimento de aproximadamente R$ 400 bilhões em medidas que envolvem perdão de dívidas, programas de renegociação, transporte gratuito e reajustes do Bolsa Família representa uma imprudência econômica sem precedentes, diante das condições fiscais do país. Comprometer recursos que o Estado não possui, sem apresentar contrapartidas capazes de sustentar financeiramente essas decisões, simplesmente transferiu os custos da campanha para a sociedade.

A gravidade desse movimento é evidente. Uma dívida pública próxima de 83% do PIB, um orçamento federal comprometido em 90% com despesas obrigatórias, juros persistentemente elevados, inflação pressionada, recordes de recuperações judiciais e medíocres perspectivas de crescimento econômico compõem um quadro incompatível com aventuras fiscais. Enquanto isso, o endividamento das famílias alcança 82%, revelando que a aparente prosperidade também se sustenta sobre crédito e crescentes compromissos financeiros.

Em qualquer ambiente, pré-eleitoral ou não, a generosidade financiada pelo Estado, quando desacompanhada de recursos e responsabilidade, não constitui prosperidade. É evidente que a estratégia foi produzir benefícios imediatos, distribuir recursos, aliviar temporariamente compromissos financeiros e criar uma percepção de melhoria das condições de vida. E o resultado é uma herança maldita que não concebe soluções indolores.

Passada a eleição, o governo reeleito não manifesta qualquer intenção de controlar seus gastos e ainda busca se aconselhar com aqueles que produziram o atual desequilíbrio fiscal e o leviano combo de bondades. Difícil que uma solução venha daí. Como se tudo isso não bastasse, multiplicam-se reações com a percepção do potencial problema econômico embarcado na demagógica redução da jornada 6×1. 

Do outro lado da equação, a alternativa assusta. Sem efetiva correção, a dívida continuará crescendo, o país entrará em um círculo vicioso no qual cada tentativa de financiar o desequilíbrio agravará o próprio desequilíbrio, direcionando a saída mágica para a rotineira criação de impostos. E a população, mais uma vez convencida de que os benefícios eleitorais representavam uma conquista permanente, será o alvo dos ajustes.

Por fim e paradoxalmente, a gravidade do quadro nacional admite que até um estelionato eleitoral, a que o público brasileiro já está devidamente acostumado, seja considerado como parte relevante de uma complexa solução.

 


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