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O ALERTA PARA O BRASIL QUE IMPORTA MAIS CALÇADOS DO QUE EXPORTA

Colocar a tranca depois que a porta foi arrombada é uma das mais consagradas práticas do despreparo suicida. O problema é que o Brasil parece ter desenvolvido uma versão ainda mais sofisticada desse comportamento quando, diante da porta arrombada, prefere deixa-la aberta.

Um exemplo recente é desastrosamente emblemático. A indústria calçadista brasileira, setor historicamente competitivo e intensivo em mão de obra, construiu ao longo de décadas uma reputação internacional baseada em qualidade, competitividade, tecnologia, design e conforto, abastecendo, durante décadas, o exigente mercado norte-americano. Entretanto, competitividade não é um patrimônio eterno e, além de ser construída, precisa ser constantemente preservada. Quando impostos, burocracia, custos logísticos, encargos trabalhistas e o chamado Custo Brasil se unem, o que era vantagem competitiva se transforma em desvantagem. E o resultado dessa conexão acabou surgindo no mês passado, julho de 2026, quando o Brasil importou mais calçados do que exportou.

Esse é um claro sinal de perda de espaço da indústria nacional em um segmento no qual o país já foi, e pode continuar sendo, protagonista. Há, contudo, a percepção de que a porta vem sendo arrombada aos poucos, culminando com o país importando o que sabe produzir. E não é uma simples troca de mercadorias, é troca de produção. Significa a indústria brasileira perdendo mercado, fechando fábricas com o consequente desaparecimento de empregos, renda, fornecedores, investimentos, arrecadação e perspectivas de desenvolvimento para diversos municípios.

Perda que possui uma trajetória.

Desde meados dos anos 1990, o Brasil adotou mudanças importantes na tributação das exportações. A Lei Kandir, de 1996, desonerou do ICMS as exportações de produtos primários e semielaborados, buscando impedir que a tributação interna se transformasse em imposto embutido sobre produto a ser exportado. A medida tinha lógica econômica. O problema é que, paralelamente, o país construiu uma estrutura tributária cada vez mais complexa e pesada. E, para financiar um Estado que amplia descontroladamente suas despesas, a carga tributária brasileira aumentou 50%, após a Constituição de 1988, passando de aproximadamente 25% do PIB (um quarto) para algo próximo de 38% (mais de um terço). Exorbitante transferência que, além de ter recaído justamente sobre quem produz e emprega, tem a capacidade de tolher investimentos no setor privado, sem que corresponda a proporcionais destinações do Estado para infraestrutura, educação, etc.

Portanto, no período o Estado passou a recolher do setor privado 50% a mais. E a vida do brasileiro? Melhorou na mesma proporção?

Os resultados ajudam a responder. A indústria perdeu metade da participação no PIB brasileiro e um setor que deveria ser um dos motores da produtividade, da inovação, da qualificação profissional e das exportações passou a enfrentar uma combinação perversa de custos elevados, insegurança, burocracia e concorrência internacional.

Há uma questão ainda mais profunda. Ao longo dos anos, consolidou-se no debate político brasileiro a narrativa que coloca o setor privado, o empreendedor, a classe média e o trabalhador formal no papel de vilão, agentes a serem permanentemente onerados e regulados. Enquanto isso, a estrutura econômica passou a ampliar espaços para a expansão das despesas públicas e das políticas de transferência de renda.

E, então, o assistencialismo, desconsiderando o fato de que transferir renda não substitui produtividade, educação de qualidade, emprego formal, investimento privado e crescimento econômico sustentável, transformou-se em permanente modelo econômico.

Acontece que, no final do processo, alguém precisará pagar a conta. E as regiões que sustentam o país, Sudeste, Sul e Centro-Oeste, diante da preferência de relevante parte do eleitorado pelo assistencialismo em vez de oportunidades de emprego, tem se mostrado insuficientes para evitar a manutenção desse modelo que vem desestabilizando as estruturas financeiras. O cenário de recordes no endividamento das famílias (atingindo 82% dos lares) e das empresas (cerca de 9 milhões de CNPJ’s), nas recuperações judiciais (mais de 6 mil empresas) e sobretudo nas inadimplências (alcançando o valor recorde de R$ 232 bilhões) revela uma perigosa dimensão que aproxima do sistema financeiro as inviabilizações que ameaçam o Tesouro, as empresas e as pessoas físicas, com riscos à sustentabilidade do país.

Diante desse preocupante quadro, a inversão no comércio internacional de calçados é um estridente sinal de alerta. É a parte visível do iceberg.

 

 


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