INTENÇÕES DE VOTOS VARIAM AO SABOR DAS INVESTIGAÇÕES
O Brasil atravessa uma fase estranha, para não dizer anormal, em que a formação das intenções de voto sinaliza estar menos associada ao custo de vida, à geração de empregos qualificados ou à capacidade de crescimento da economia do que a determinados fatos que emergem das investigações conduzidas pela Polícia Federal. Essa mudança expõe, de forma incômoda, uma resiliente deterioração na relação entre a classe política, a gestão pública e a utilização dos recursos arrecadados do contribuinte.
E, pasmem, essa turbulência eleitoral ocorre justamente quando a economia brasileira atravessa um período de imprevisibilidade, aumento de insegurança e instabilidade de mercado. Em ano eleitoral, a incontrolável expansão das despesas públicas amplia a pressão sobre as contas do governo, alimenta o desequilíbrio fiscal e contribui para a manutenção de juros elevados.
O problema não está apenas no tamanho da despesa, mas também na consequente perda de credibilidade dos instrumentos criados para discipliná-la. O arcabouço fiscal, concebido como mecanismo de reorganização das contas públicas e de recuperação da confiança, transformou-se em mais uma regra ineficaz, diante da conveniência política.
Como consequência, a indústria de transformação brasileira sente diretamente os efeitos dessa combinação. O país perdeu posições no ranking internacional que reúne 90 economias e chegou à 69ª colocação, permanecendo entre os países de pior desempenho industrial. Ao mesmo tempo, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria – CNI, 26 dos 29 setores industriais demonstram pessimismo, sensação que se prolonga por longos 19 meses. Esse é o retrato da produção nacional.
Ao mesmo tempo, o endividamento de famílias e empresas continua crescendo, sendo acompanhado por sucessivos recordes de recuperações judiciais e pela astronômica escalada da dívida pública. A consequência, essa sim é previsível. O ambiente de negócios se deteriora, a capacidade de investimento diminui e previsões de recessão para 2027 ganham espaço. E o amálgama se completa com a baixa produtividade nacional, velha conhecida do desenvolvimento brasileiro, unindo-se aos juros elevados, à insegurança fiscal e a um ambiente político permanentemente tensionado. E, sem previsibilidade, o mercado cobra mais caro pelo risco.
É nesse contexto que o Congresso Nacional, sob pressão do Poder Executivo, embarca em mudanças na jornada de trabalho 6×1. Inacreditavelmente, instituições ditas responsáveis pela saúde econômica do país projetam transformar uma questão estrutural do mercado em instrumento populista de disputa política, justamente quando a economia dá claros sinais de enfermidade.
Ainda assim, com todo esse dramático quadro, a corrupção continua ocupando espaço central na percepção do eleitor. Mesmo diante do custo de vida, do emprego, da renda, da produtividade e da perspectiva de crescimento, são os escândalos e as investigações que saem das páginas policiais e dominam o debate político. E não é por acaso. A sociedade brasileira parece ter chegado ao limite da tolerância com a inadequada utilização dos recursos públicos. Após tantos vergonhosos episódios e desmantelamento da Operação Lava Jato, as pesquisas sinalizam que o eleitor inverteu suas prioridades e passou a enxergar a corrupção não apenas como um problema moral, mas como uma ameaça concreta ao desenvolvimento do país.
É possível até que essa seja a mais importante mensagem do eleitor, antes mesmo dos resultados das urnas.
