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LEILA DO VÔLEI E O DISCURSO CONTRA A CORRUPÇÃO

Chefe de gabinete da senadora, Ricarda Lima, foi investigada por desvio de R$ 800 mil e recebeu R$ 2,6 milhões do Senado desde 2019

 

Por Horácio Lessa Ramalho

A senadora Leila do Vôlei (PDT-DF) diz defender publicamente o combate à corrupção, mas mantém como chefe de gabinete Ricarda Lima, ex-colega de seleção brasileira de vôlei e uma das fundadoras do Instituto Amigos do Vôlei (IAV), investigado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) por suspeitas de irregularidades em contratos com o governo do DF.

Em fevereiro de 2021, Ricarda foi alvo da operação Tie-Break, que apurou suspeitas de direcionamento em licitações, superfaturamento e desvio de R$ 800 mil na gestão do Centro Olímpico de Santa Maria. À época, ela já trabalhava no gabinete de Leila no Senado, cargo que ocupa há oito anos.

Segundo dados do portal da transparência do Senado (https://www.senado.leg.br/transparencia/rh/servidores/remuneracao.asp?fcodigo=3581691&fvinculo=&mes=01/05/2026), Ricarda recebeu R$ 2.619.877,87 em remunerações desde fevereiro de 2019, sem contar auxílios.

Investigação apurou suspeitas de irregularidades

O Instituto Amigos do Vôlei administrou o Centro Olímpico de Santa Maria de 2011 a 2017, durante os governos de Agnelo Queiroz (PT) e Rodrigo Rollemberg (PSB). O contrato com o GDF era de quase R$ 10 milhões.

De acordo com a investigação da Polícia Civil, cerca de R$ 3 milhões em despesas não tiveram comprovação. Após a análise da prestação de contas, os peritos criminais apontaram que o valor devido aos cofres públicos seria de R$ 800.463,56.

Uma auditoria do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), realizada em 2014, também identificou irregularidades em valores cobrados por cursos de informática e inglês, além de suspeitas de superfaturamento na compra de equipamentos esportivos.

O relatório apontou, ainda, que o instituto gastou R$ 360 mil em uma pesquisa de satisfação com 2,4 mil questionários, valor 411,7% superior ao parâmetro de mercado citado na auditoria.

Na época da operação, a defesa de Ricarda afirmou que ela sempre teve conduta ética e que foi surpreendida pela investigação. Já a assessoria da senadora Leila do Vôlei defendeu que os fatos fossem esclarecidos “o mais rapidamente possível”.

Do instituto ao caixa do partido

Ricarda não é a única figura do IAV que seguiu ao lado da senadora. Francisco Barbosa Pedrosa, secretário-geral e diretor financeiro do instituto, foi multado pelo TCDF em novembro de 2020, junto com Ricarda e com o também diretor financeiro André Luis Pedrosa, por irregularidades na gestão da entidade entre 2009 e 2011 — R$ 7 mil para cada um, R$ 21 mil no total.

A punição não afastou Francisco do círculo de Leila. Ele foi administrador financeiro da campanha da senadora em 2018, trabalhou em seu gabinete como assistente parlamentar e hoje aparece na executiva regional do PDT-DF como tesoureiro do partido. Na campanha de 2026, consta na prestação de contas parcial entregue ao TRE-DF que Francisco cedeu à candidatura um Chevrolet Cruze, registrado como doação estimável de R$ 5 mil em 16 de agosto.

O mesmo advogado para a chefe de gabinete e para a campanha

Quando Ricarda foi alvo da Tie-Break, quem falou por ela à imprensa foi o advogado Fábio Broilo Paganella. O escritório dele, Paganella & Advogados Associados, é também o responsável pela representação jurídica das campanhas de Leila: recebeu R$ 190 mil em 2018, R$ 430 mil em 2022 e R$ 228 mil em 2026 – este último pago integralmente com recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) em 26 de agosto. Somados, R$ 848 mil em três eleições, segundo os registros do DivulgaCandContas e do TRE-DF.

Não há irregularidade em contratar o mesmo advogado ou em receber a cessão de um carro de um dirigente partidário. O que os registros mostram é a permanência de um mesmo grupo – a presidente, o diretor financeiro e o advogado do instituto investigado — no gabinete, na tesouraria do partido e no caixa da campanha da senadora que se apresenta como intolerante à corrupção.

Discurso contra a corrupção

Em abril de 2026, Leila publicou um vídeo nas redes sociais (https://www.instagram.com/reel/DXgm5qzkhJc/) em que afirma não aceitar que recursos públicos sejam desviados sem responsabilização.

“Eu me recuso a aceitar que o dinheiro público seja roubado escancaradamente sem que ninguém pague por isso. Eu me recuso a aceitar a política com p minúsculo. Isso não é normal e nós sabemos disso. Não é aceitável. Se Deus quiser, não vai continuar se depender dessa senadora“, declarou. Na legenda da publicação, a parlamentar escreveu: “não passo pano pra corrupção“.

A investigação, por si só, não comprova culpa ou responsabilidade criminal de Ricarda. Mas a permanência dela no gabinete, mesmo após a operação policial, abre espaço para uma pergunta incômoda sobre os critérios de Leila na hora de cobrar ética e combate à corrupção.

Afinal, para Leila do Vôlei, isso parece ter regras diferentes conforme o lado da quadra. E há uma ironia difícil de ignorar: Leila e Ricarda, ex-companheiras de seleção brasileira e sócias no Instituto Amigos do Vôlei, construíram juntas uma trajetória que saiu das quadras para a política. Quando o assunto é corrupção, será que o bloqueio também é seletivo?

A resposta virá das urnas em 4 de outubro. Soberano, o eleitor do Distrito Federal terá a palavra final sobre o futuro político da senadora.

 

Horácio Lessa Ramalho é Cientista Político

 

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