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NOVA CONCORRÊNCIA AMEAÇA A INDÚSTRIA DE CURTUMES

Durante décadas, a indústria brasileira de curtumes se consolidou como uma das mais competitivas do planeta. Transformou o país em um dos maiores exportadores globais de couro, agregando tecnologia, design, inovação e elevados padrões ambientais a uma matéria-prima abundante proveniente da pecuária nacional. Essa trajetória permitiu ao Brasil ocupar posição de destaque no comércio internacional e construir um parque industrial reconhecido pela qualidade de seus produtos.

Entretanto, os resultados dos últimos anos revelam que o setor atravessa uma profunda transformação estrutural, cuja origem vai muito além da tradicional concorrência internacional ou da disputa histórica com os materiais sintéticos.

Um dos sinais mais evidentes dessa mudança aparece nas exportações brasileiras de couro, que vêm perdendo vigor de forma contínua. No primeiro semestre de 2026, o valor exportado registrou retração de aproximadamente 16% em relação ao mesmo período de 2024, evidenciando que a perda de competitividade deixou de ser um fenômeno conjuntural para assumir características estruturais.

 

 

Observa-se, ainda, que, nesse mesmo intervalo, as vendas destinadas aos três principais mercados consumidores — China, União Europeia e Estados Unidos — recuaram em torno de 22%. Considerando que esses destinos historicamente concentram parcela expressiva das exportações brasileiras, o desempenho revela a existência de desafios muito mais profundos do que simples oscilações de mercado.

A própria evolução histórica da oferta mundial de couro ajuda a compreender parte desse processo. Ao longo do século XXI, a população mundial cresceu cerca de 33%, enquanto a disponibilidade global de couros pouco avançou. Em condições normais de mercado, essa combinação tenderia a elevar significativamente o valor da matéria-prima. Contudo, esse movimento não ocorreu porque a expansão dos materiais sintéticos reduziu considerável parte da demanda pelo couro natural.

O resultado foi uma extraordinária desvalorização econômica da pele bovina. Se no início deste século o couro representava aproximadamente 10% do valor comercial de um boi, atualmente sua participação não alcança 1%.

Diversos fatores contribuíram para essa incrível depreciação. Um deles foi a construção de uma narrativa negativa sobre o couro natural, frequentemente baseada em argumentos que ignoram aspectos relevantes do ciclo produtivo. Durante décadas, a indústria petroquímica investiu intensamente na promoção dos materiais sintéticos, apresentando-os como alternativas ambientalmente superiores. Entretanto, essa percepção não encontra respaldo na realidade. O couro constitui um subproduto da cadeia da carne que, quando processado industrialmente, transforma um potencial resíduo em um bem durável de elevado valor agregado. Já os materiais sintéticos, que derivam predominantemente de insumos petroquímicos, apresentam enorme dificuldade de degradação e geram impactos ambientais significativamente superiores ao longo de seu ciclo de vida.

Apesar disso, também é necessário reconhecer que o setor curtidor ainda enfrenta dificuldades para comunicar de forma eficiente sua contribuição ambiental, sua durabilidade, sua reciclabilidade e os atributos que fazem do couro um produto nobre. Não deixa de ser paradoxal observar que os artigos de couro continuam sendo amplamente utilizados pelos segmentos de maior poder aquisitivo no mundo, enquanto grande parte dos consumidores, que naturalmente imitam ou reproduzem tendências desses mercados, não recebe informações sobre suas vantagens.

Como se não bastasse essa disputa por percepção junto ao consumidor, a indústria curtidora brasileira convive há anos com um ambiente tributário extremamente desfavorável. A injustificável e predatória retenção sistemática de créditos de ICMS, PIS e COFINS por parte dos governos estaduais e federal provoca severa restrição de liquidez, reduz a capacidade de investimento das empresas e compromete sua competitividade internacional.

Mas, provavelmente, o maior desafio esteja surgindo dentro da própria cadeia produtiva da pecuária.

Segundo avaliações de empresários do setor, parcela crescente da matéria-prima couro passou a ser direcionada para a fabricação de gelatina, colágeno e proteínas. Trata-se de um mercado em rápida expansão, impulsionado pelo crescimento dos segmentos de alimentos funcionais, suplementos nutricionais, cosméticos e produtos farmacêuticos.

Essa mudança altera profundamente a dinâmica econômica da cadeia. Com maior capacidade de remuneração, essas indústrias chegam a oferecer preços superiores em até 30% aos tradicionalmente praticados pelos curtumes, tornando cada vez mais difícil competir pela aquisição da matéria-prima.

Existe ainda um segundo fator que amplia essa vantagem competitiva. Enquanto a indústria do couro depende fortemente da qualidade da pele, já que cicatrizes, marcas, parasitas ou falhas de manejo reduzem significativamente o valor agregado do produto final, a indústria de gelatina e colágeno praticamente substitui o conceito de qualidade pelo de rendimento industrial. O que efetivamente importa é o volume de colágeno disponível para processamento.

Na prática, couros anteriormente classificados como de baixo valor comercial passam a competir em igualdade de condições, reduzindo ainda mais a disponibilidade de matéria-prima para os curtumes e elevando seus custos de aquisição.

Forma-se, assim, um paradoxo de grandes proporções. Enquanto fabricantes de gelatina e colágeno anunciam novos investimentos e ampliam sua capacidade produtiva, a indústria curtidora necessita investir continuamente em automação, inovação tecnológica, sustentabilidade, rastreabilidade, design, qualificação profissional e processos industriais capazes de atender às rigorosas exigências dos mercados internacionais.

Entretanto, os preços internacionais do couro não evoluem na mesma velocidade dos custos de produção, comprimindo margens e reduzindo a rentabilidade do setor.

A indústria brasileira de curtumes passa, dessa forma, a enfrentar uma dupla pressão competitiva. De um lado, continua disputando espaço com materiais sintéticos derivados da petroquímica, cuja evolução tecnológica reduz diferenças de aparência, desempenho e custo. De outro, vê sua própria matéria-prima se tornar objeto de intensa concorrência da indústria alimentícia, que apresenta maior capacidade de pagamento e menor exigência quanto à qualidade do couro adquirido.

Poucos segmentos industriais convivem simultaneamente com perda de mercado para produtos substitutos, aumento expressivo do custo da principal matéria-prima e severa restrição de liquidez provocada pela retenção de créditos tributários.

Caso essa tendência se consolide, seus efeitos poderão ser disruptivos para toda a cadeia produtiva. A redução da oferta de matéria-prima tende a acelerar processos de concentração empresarial, estimular o fechamento de unidades industriais, provocar perda de empregos altamente especializados e reduzir a participação brasileira no comércio internacional de couro.

Mais do que uma crise passageira, desenha-se uma mudança estrutural nas relações entre diferentes cadeias produtivas. O couro deixa de ser um insumo destinado quase exclusivamente à indústria coureira e passa a disputar espaço com mercados caracterizados por maior valor agregado, crescimento acelerado e elevada capacidade de remuneração.

Nesse novo ambiente competitivo, sobreviver deixará de depender apenas da eficiência operacional. Será indispensável ampliar ganhos de produtividade, acelerar investimentos em inovação, desenvolver produtos de maior valor agregado, fortalecer a presença em nichos premium, consolidar estratégias de diferenciação e, sobretudo, reconquistar o consumidor.

A indústria brasileira de curtumes enfrenta, provavelmente, o maior desafio de sua história recente. Compreender a profundidade dessa transformação e adaptar-se às novas condições de mercado poderá determinar não apenas sua competitividade futura, mas também a preservação de um dos segmentos industriais que, durante décadas, projetou o Brasil entre as maiores referências mundiais na produção de couro de alta qualidade.

Luiz Bittencourt

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