Metrô do DF completa 22 anos
Metrô do DF completa 22 anos; especialistas apontam necessidade de expansão
A expansão do sistema metroviário é urgente, segundo especialista. Enquanto isso, a população aguarda pelas obras no lado norte do Distrital Federal, que devem facilitar a vida de pelo menos 135 mil usuários brasilienses
Por Júlia Eleutério
Por Arthur de Souza

Inaugurado oficialmente em 31 de março de 2001 como uma alternativa para os moradores do Distrito Federal, o metrô estagnou.
Ao completar 22 anos de existência, várias promessas de expansão foram feitas, mas nenhuma saiu do papel.
Atualmente, o sistema metroviário da capital do país tem 42,5 km de extensão e 27 estações operacionais, para atender uma média de 135 mil usuários/dia, em dias úteis, segundo a Companhia do Metropolitano do DF (Metrô-DF).
Para o doutor em transportes pela Universidade de Brasília (UnB) e professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Católica de Brasília (UCB) Edson Benício, a ampliação é algo urgente para a população.
“Já era para ter acontecido, há bastante tempo. Os benefícios dessa expansão são diversos: vai aumentar o número de usuários do sistema; as viagens serão mais seguras para eles; e o tempo de viagem vai ser menor, se comparado com o ônibus”, aponta o especialista.
De acordo com o doutor em transportes, o impacto de uma expansão é positivo (leia mais em Vantagens), mas vai depender de um funcionamento efetivo dessa ampliação.
Sobre a questão da viabilidade, Benício destaca que é uma questão de prioridade do governo. “Atualmente, estão sendo priorizadas as obras que atendam a demanda dos veículos individuais, acima dos coletivos, como túneis, vias de acesso e novas faixas de rolagem”, enumera. “O ideal seria que o governo focasse naquilo que vai atender o transporte coletivo: investimentos em BRT, VLT e a própria expansão de estações do metrô”, aponta o professor da UCB.
Em relação ao tempo necessário para que o projeto seja executado, o professor alerta que ele deve ser de Estado e não de governo. “O transporte público é uma área muito sensível, que afeta diretamente a vida de todos. Tudo correndo como deve ser, acredito que a expansão do metrô possa levar até oito anos para ficar pronta”, calcula.
O especialista comenta que o foco inicial da expansão deve ser nas linhas que atende a população que têm a maior demanda, como Ceilândia e Samambaia.
“A Asa Norte não tem uma quantidade de usuários que banque o sistema. No transporte, temos um jargão que diz ‘o que paga o sistema é girar a catraca’. Então, não se justifica uma obra que é muito cara (por ser enterrada), para atender uma população que não vai crescer tanto”, observa.
“Para essa região, um VLT na W3 Norte — interligando com o BRT vindo de Sobradinho e Planaltina — seria o suficiente”, acredita Benício.
Evitando transtornos
A população considera como benéfica uma expansão para o lado norte da cidade. A estudante Giovanna Leles, 24 anos, sabe bem as vantagens de utilizar o metrô. Moradora de Águas Claras, ela ressalta que, para quem precisa ir até o Plano Piloto, o metrô é a melhor opção de transporte público. Cursando línguas estrangeiras aplicadas na Universidade de Brasília (UnB), Giovanna considera interessante uma possível expansão dos trilhos para o lado norte de Brasília. “Com uma linha seguindo até o fim da Asa Norte, iria evitar o transtorno de descer na Rodoviária, que é caótica, para pegar o (a linha) 110 e ir até a universidade”, observa.
“Diariamente, gasto até 50 minutos no trajeto de casa até a UnB. Se eu não precisasse descer na Rodoviária para pegar um ônibus, acho que poderia cortar esse tempo pela metade. Seria outra vida”, aponta a estudante.
Mesmo assim, a moradora de Águas Claras agradece por ter essa opção. “Por mais que o metrô aqui não seja dos melhores, ainda acho mais seguro do que andar de ônibus”, acredita.
Assim como Giovanna, a diarista Regina Lúcia Santiago, 61, também está feliz pelo fato de poder contar com o metrô na sua rotina diária. “Quando tem as greves, chega a atrapalhar um pouco. Mas de forma geral, o metrô me ajuda muito. Se não fosse por ele, minha rotina seria muito mais pesada”, destaca a moradora de Ceilândia. “Não me vejo fazendo minhas coisas sem o metrô”, aponta. Para ela, a expansão também seria muito bem-vinda pois, mesmo não morando do lado norte do DF, precisa ir até de vez em quando.
“Hoje (ontem), por exemplo, estou vindo de Planaltina. Demorei quase uma hora e meia para chegar aqui, na Rodoviária do Plano Piloto. Se tivesse a linha expandida até o fim da Asa Norte, tenho certeza que esse tempo poderia ser do trajeto completo, até a minha casa em Ceilândia”, calcula Regina Lúcia.
Viagem mais rápida
A diarista Rita de Alencar Silva, 31, celebra a possibilidade de ampliação para o lado norte do Plano. Moradora do Setor de Mansões de Sobradinho 2, ela conta que a espera diária pela linha de ônibus que a atende é um dos principais problemas. “Aqui, na parada, demora muito para pegar a linha que preciso (519). O ônibus passa de hora em hora”, ressalta. “Além desse tempo esperando, ainda tem mais, pelo menos, outra hora dentro do ônibus. Isso quando ele não vem lotado e não dá para entrar”, lamenta a diarista.
Para Rita de Alencar, a opção do metrô ajudaria muito na sua rotina de ir e voltar do Plano Piloto todos os dias. “Se tivesse o metrô, pelo menos até o fim da Asa Norte, seria muito melhor para mim e todos que moram naquela região”, acredita. “A viagem seria muito mais rápida e poderia utilizar o tempo economizado para fazer outras coisas”, esclarece.
Em setembro de 2020, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) realizou uma audiência pública para tratar da concessão para gestão, operação e manutenção dos serviços de transporte metroviário do DF.
Com prazo de 30 anos a contar do ano passado, a concessão patrocinada tem entre as características o aumento da frota de 30 para 50 trens, sendo a aquisição de 11 novos trens em 2023, quatro trens em 2030 e cinco em 2040. Além disso, os vagões da frota atual seriam reformados, incluindo a instalação de ar condicionado.
O projeto foi encaminhado para o Tribunal de Contas do DF (TCDF), que está avaliando. Ao Correio, a pasta destacou — por meio de nota — que a concessão é um projeto do Governo do Distrito Federal, que será realizado por meio de Parceria Público Privada (PPP), tornando o transporte metroviário mais eficiente e gerando economia para o governo. “O objetivo é dobrar a capacidade do Metrô, requalificar todos os trens, modernizar, colocar ar-condicionado, melhorar o sistema de alimentação de energia e reduzir o tempo entre um trem e outro”, avaliou a Semob.
Atualmente, o metrô está em fase de licitação para a expansão da linha 1, no ramal Samambaia (confira o infográfico). O projeto prevê a extensão da via em 3,6km, a partir do terminal da região. Segundo a Companhia Metropolitana do DF (Metrô-DF), no novo trecho, haverá duas estações, sendo uma próxima à unidade de pronto atendimento (UPA) de Samambaia e outra, que passará a funcionar como terminal, próxima ao Centro Olímpico.
O investimento para a ampliação em Samambaia está estimado em R$ 362 milhões, com previsão de duração das obras de quatro anos, e o projeto de expansão deve beneficiar uma população de 10 mil pessoas.
Além de Samambaia, a companhia destacou que também concluiu os estudos para a expansão de 2,5km de via em Ceilândia com a construção de duas novas estações, além da primeira estação da Asa Norte, que ficará nas proximidades do Setor Comercial Norte (SCN), com 1 km de via até a altura do Hospital Regional da Asa Norte (Hran).
Sobre a reclamação de demora de ônibus nas regiões administrativas que não contam com o metrô, a Semob respondeu que o serviço de transporte público coletivo atende a todas as regiões com linhas de ônibus que permitem integração entre ônibus, metrô e BRT para o deslocamento dos passageiros.
Além disso, a pasta ressaltou que monitora a operação do sistema e realiza estudos para ampliar a oferta de linhas, de viagens e de itinerários, de forma que o transporte público atenda a demanda da população. “Os cidadãos podem sugerir criação ou alteração de linhas por meio da Ouvidoria, no 192 ou pelo site (https://www.participa.df.gov.br/).
Constantemente, o transporte público sofre alterações baseadas nas sugestões dos usuários”, destacou a pasta.
Vantagens
Trânsito — O metrô tem um grande potencial de migrar o usuário do veículo individual para o sistema metroviário. Se ele estiver funcionando, de forma regular, vai diminuir o tempo de viagem, além de ser mais seguro. Isso faz com que as pessoas deixem o carro em casa, viabilizando um trânsito mais fluido.
Meio ambiente — Migrando os usuários para o sistema metroviário, diminui-se, consequentemente, a quantidade de veículos na rua. Isso também afeta a emissão de gases e outros materiais poluentes, por partes desses veículos, na cidade.
Fonte: Edson Benício, doutor em transportes pela UnB e professor do departamento de engenharia civil da UCB