BRASÍLIA PODE ELEGER SUA PRIMEIRA DEPUTADA DISTRITAL AUTISTA
BRASÍLIA PODE ELEGER SUA PRIMEIRA DEPUTADA DISTRITAL AUTISTA
“Se eleita, destinarei 100% das minhas emendas parlamentares aos neurodivergentes”, afirma Giza Soares
Diagnosticada com autismo aos 50 anos, jornalista, empresária e pessoa com deficiência, Giza Soares fala sobre sua trajetória, defende uma política construída por quem vive a realidade da inclusão e assume o compromisso de destinar integralmente suas emendas parlamentares às pessoas com deficiência, aos neurodivergentes e às famílias atípicas.
Por décadas, Giza Soares buscou respostas para sentimentos e desafios que a acompanharam desde a infância. Foi somente aos 50 anos que recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma descoberta que transformou sua forma de compreender a própria história. Hoje, jornalista, empresária, mãe, avó, pessoa com deficiência (PCD) e pré-candidata a deputada distrital pelo Distrito Federal, ela afirma que encontrou um novo propósito: transformar sua experiência de vida em políticas públicas para milhares de famílias que enfrentam diariamente a falta de acolhimento, atendimento especializado e inclusão. Nesta entrevista, Giza fala sobre representatividade, os desafios das famílias atípicas e apresenta um compromisso que pretende marcar seu mandato: destinar 100% das emendas parlamentares às causas das pessoas com deficiência e dos neurodivergentes.
O diagnóstico de autismo aos 50 anos mudou sua vida?
Mudou completamente.
Durante décadas, eu procurava respostas para situações que vivia desde criança. Muitas vezes me perguntava por que determinadas experiências eram tão difíceis para mim enquanto pareciam naturais para outras pessoas. Quando recebi o diagnóstico, chorei. Não foi tristeza. Foi alívio. Pela primeira vez compreendi minha própria história. Passei a olhar para minha infância, minha vida profissional e minha trajetória familiar sob uma nova perspectiva.
O diagnóstico não mudou quem eu sou. Ele explicou quem eu sempre fui.
Muitas pessoas acreditam que o autismo é identificado apenas na infância. O que sua história demonstra?
Mostra que milhares de adultos vivem sem diagnóstico.
Existe uma geração inteira que cresceu quando quase não se falava sobre neurodivergência. Muitas pessoas passaram a vida sendo chamadas de difíceis, tímidas ou estranhas, quando, na verdade, precisavam apenas de acolhimento e atendimento especializado. Receber um diagnóstico pode mudar completamente a vida de uma pessoa.
Sua pré-candidatura nasce diretamente ligada à pauta da inclusão. Por quê?
Porque eu vivo essa realidade.
Não falo sobre inclusão apenas como ativista ou jornalista. Eu sinto na pele o que significa enfrentar preconceito, invisibilidade e falta de compreensão. Também sou mãe, avó, empresária e pessoa com deficiência. Conheço as dificuldades que milhares de famílias enfrentam todos os dias. A política precisa ouvir quem vive os problemas, e não apenas quem fala sobre eles.
Brasília poderá eleger a primeira deputada distrital autista da sua história. Qual seria o significado desse momento?
Seria um marco para o Distrito Federal.
Não apenas pela minha história, mas porque milhares de famílias finalmente se veriam representadas. Durante muitos anos falaram sobre nós. Agora chegou a hora de falarmos por nós mesmos.
Representatividade não significa apenas ocupar uma cadeira no Parlamento. Significa levar para os espaços de decisão pessoas que conhecem a realidade e sabem exatamente onde estão os problemas.
A senhora costuma dizer que “quem cuida também precisa ser cuidado”. Por quê?
Porque o debate sobre deficiência muitas vezes esquece das famílias.
Existem mães que abandonam suas carreiras para cuidar dos filhos. Pais que enfrentam filas intermináveis. Avós que assumem responsabilidades. Cuidadores que adoecem emocionalmente. Quando uma criança recebe um diagnóstico, toda a família muda de vida. As políticas públicas precisam enxergar essa realidade.
Quais são hoje os maiores desafios enfrentados pelas famílias atípicas?
O primeiro desafio ainda é conseguir o diagnóstico. Depois vêm as filas para atendimento especializado, a falta de profissionais, a dificuldade de acesso às terapias, o preconceito e a burocracia. Muitas famílias enfrentam tudo isso praticamente sozinhas. Precisamos fortalecer essa rede de apoio e fazer com que o Estado esteja presente desde o início dessa caminhada.
O Distrito Federal possui mais de 34 mil pessoas diagnosticadas com TEA. Esse número representa a realidade?
Na minha opinião, não. Existem milhares de crianças, jovens e adultos que ainda não receberam diagnóstico. Especialmente mulheres e adultos que passaram décadas convivendo com dificuldades sem compreender a origem delas.
Quando falamos sobre autismo, não falamos apenas de estatísticas. Falamos de vidas.
Quais serão suas prioridades na Câmara Legislativa, caso seja eleita?
Quero ampliar o acesso ao diagnóstico pelo SUS, reduzir as filas para atendimento especializado, fortalecer os centros de referência, garantir acesso às terapias, ampliar a inclusão nas escolas e fiscalizar o cumprimento dos direitos já previstos em lei.
O Brasil possui uma legislação avançada. O problema é que muitos desses direitos ainda não chegam à população.
“100% das minhas emendas serão para a causa dos neurodivergentes”
A senhora assumiu o compromisso de destinar todas as emendas parlamentares às pessoas com deficiência e aos neurodivergentes. Por que tomou essa decisão?
Porque inclusão não pode ser apenas discurso.
Se a população confiar em mim e eu for eleita deputada distrital, 100% das emendas parlamentares a que terei direito serão destinadas às pessoas com deficiência, aos autistas, aos demais neurodivergentes e às famílias atípicas. É um compromisso público. Claro. Transparente. E absolutamente inegociável.
Hoje, milhares de famílias aguardam atendimento, terapias, equipamentos, medicamentos e apoio especializado enquanto os recursos públicos são distribuídos para inúmeras áreas. Eu quero inverter essa lógica. Minha prioridade será fortalecer instituições sérias, ampliar os serviços públicos, investir em acessibilidade, educação inclusiva, qualificação profissional, geração de oportunidades e ampliar a rede de apoio às famílias.
Não estou fazendo uma promessa genérica. Estou assumindo um compromisso objetivo. Cada centavo das minhas emendas parlamentares será investido exclusivamente na causa da pessoa com deficiência e dos neurodivergentes.
Alguns poderão considerar essa proposta ousada. Como responde a essas críticas?
Toda grande transformação começa parecendo ousada.
Durante muitos anos disseram que inclusão era impossível. Depois disseram que era cara. Hoje sabemos que excluir custa muito mais para a sociedade.
Minha história não me permite tratar essa pauta como apenas mais uma entre tantas. Ela será prioridade absoluta.
Sua trajetória também foi marcada por dificuldades pessoais. Como isso influencia sua atuação?
Influencia completamente. Já enfrentei momentos muito difíceis. Passei fome. Vivi situações de extrema vulnerabilidade. Precisei pedir ajuda para sobreviver. Também enfrentei preconceito e invisibilidade. Essas experiências me ensinaram que dignidade não pode depender da sorte. O Estado precisa estar presente na vida das pessoas.
O jornalismo mudou sua forma de enxergar a política?
Sem dúvida. Durante anos acompanhei histórias de superação, exclusão e esperança. Conheci famílias que lutavam diariamente por atendimento. Vi de perto onde as políticas públicas funcionavam e onde elas simplesmente não chegavam. Foi essa experiência que fortaleceu meu compromisso de transformar essas histórias em ações concretas.
Ainda existe preconceito contra pessoas autistas na política?
Infelizmente, sim.
Ainda existe quem acredite que pessoas autistas não possam liderar, decidir ou ocupar espaços de poder. Isso não corresponde à realidade. O autismo não define competência. Cada pessoa possui talentos, potencialidades e formas diferentes de contribuir. Precisamos romper esses estereótipos.
Como a senhora gostaria de ser lembrada ao final da sua trajetória pública?
Como alguém que abriu portas. Como alguém que transformou dor em políticas públicas. Que ajudou famílias. Que reduziu filas. Que levou dignidade para quem mais precisava.
Se uma mãe disser que encontrou apoio, se um jovem conseguir atendimento mais cedo ou se uma pessoa com deficiência conquistar oportunidades que antes pareciam impossíveis, eu saberei que cumpri minha missão.
Que mensagem gostaria de deixar para as pessoas neurodivergentes do Distrito Federal?
Quero dizer que vocês não estão sozinhos.
Durante muito tempo tentei me encaixar em um mundo que não compreendia quem eu era. Hoje entendo que nossas diferenças não precisam ser escondidas. Elas precisam ser respeitadas. Nossa voz importa. Nossa presença importa. Nossa participação na política importa. Porque inclusão verdadeira acontece quando deixamos de falar sobre as pessoas e passamos a construir políticas públicas com elas.
Nada sobre nós sem nós.
Instagram: @giza.tea
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