O DESAFIO BRASILEIRO NÃO É SOMENTE OS EUA, MAS O NOVO COMÉRCIO MUNDIAL
O debate nacional sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros ganhou enorme repercussão, especialmente pelo seu uso eleitoreiro. Reduzir os desafios do comércio exterior brasileiro ao confronto com Washington significa ignorar uma realidade muito mais abrangente. Para começar, a tarifação promovida pelos Estados Unidos não foi concebida exclusivamente para atingir o Brasil, tampouco decorre apenas do superávit comercial brasileiro com aquele mercado. Representa, na realidade, uma estratégia global de política externa e de reconfiguração das cadeias internacionais de produção, aplicada a diversos parceiros comerciais.
Enquanto o debate permanece, por conveniência eleitoral, concentrado nas medidas norte-americanas, outras importantes economias vêm impondo restrições igualmente relevantes às exportações brasileiras. São obstáculos a revelar que o problema ultrapassa qualquer divergência bilateral e expõe uma transformação estrutural do comércio internacional.
A China, principal destino das exportações brasileiras de commodities, endureceu as exigências sanitárias para a importação de alimentos provenientes do Brasil. Além disso, estabeleceu uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para a importação de carne bovina brasileira, impondo uma sobretaxa de 55% sobre os volumes que excederem esse limite. Na prática, cria-se uma barreira comercial que reduz a competitividade do produto brasileiro justamente em seu maior mercado consumidor.
A União Europeia também amplia suas restrições. Apesar dos esforços brasileiros para viabilizar o acordo de livre comércio com o Mercosul, o bloco europeu decidiu excluir, a partir de setembro próximo, o Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal, sob a alegação de insuficiência na comprovação do controle sobre o uso de antibióticos. Paralelamente, endureceu as exigências ambientais incidentes sobre o óleo de soja brasileiro e elevou barreiras regulatórias que restringem a entrada de produtos siderúrgicos nacionais.
Medidas distintas, mas que produzem o mesmo efeito ao limitar o acesso dos produtos brasileiros aos principais mercados mundiais. Cada vez mais, normas sanitárias, exigências ambientais, mecanismos regulatórios e critérios técnicos se transformam em sofisticados instrumentos de proteção comercial.
Não há dúvida de que o cenário internacional mudou. Há uma nova orientação no comércio mundial que, ultrapassando a busca pela eficiência econômica, passou a incorporar objetivos geopolíticos, ambientais, tecnológicos e de segurança nacional. Nesse ambiente, competitividade depende tanto da capacidade produtiva quanto da habilidade diplomática, do preparo e da qualidade nas negociações internacionais.
O verdadeiro desafio brasileiro não é o contencioso com os EUA, como o oportunismo político e a mídia tentam demonstrar, mas consiste em reposicionar sua estratégia de inserção internacional em um mundo que rapidamente se reorganiza. E aí passa a enfrentar exigências de inteligência comercial, capacidade técnica nas negociações, segurança jurídica e previsibilidade para investidores e exportadores.
Em um ambiente global cada vez mais competitivo, improvisação é sinônimo de risco. Negociações conduzidas sem preparo técnico ou subordinadas exclusivamente a interesses eleitoreiros estimulam a fuga de empresas, deslocam capitais para mercados de maior previsibilidade e comprometem a economia. Estímulo constatado pela significativa transferência de empresas brasileiras para o Paraguai.
O comércio exterior se tornou arena estratégica de disputa pelo desenvolvimento. Nações que insistirem em interpretar cada barreira comercial como um episódio isolado ou exclusivamente político, nivelam o problema por baixo e comprometem competitividade, investimentos e oportunidades. Não por acaso o Brasil está submetido às atuais restrições comerciais.
O desafio brasileiro não tem apenas uma bandeira. Os Estados Unidos são parte, ainda que muito importante, de um novo cenário global. A reorganização do comércio mundial exige do Brasil uma política externa de pragmatismo econômico, orientada por interesses nacionais.


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