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BARRA DO PIRAÍ, A REGIÃO E O ENIGMÁTICO 2º TURNO

O segundo turno das eleições de 2026 produziu números que merecem uma análise cuidadosa. Por trás do resultado nacional, do comportamento eleitoral do Sul Fluminense e da inesperada virada em Barra do Piraí, há a questão de entendimento sobre a redistribuição do eleitorado entre os dois turnos.

Por: Luiz Bittencourt

Segundo os números apresentados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os dois candidatos à Presidência da República que chegaram ao segundo turno haviam reunido, juntos, 110 milhões de votos no primeiro turno. No segundo, essa soma alcançou 124 milhões. Um crescimento de 14 milhões de votos, dos quais 3 milhões foram incorporados por Flávio Bolsonaro e 11 milhões por Lula.

A primeira constatação é inequívoca: Lula ampliou sua votação em ritmo muito superior ao de seu adversário.

A redução das abstenções teria acrescentado 3 milhões de eleitores às urnas, enquanto a diminuição dos votos brancos e nulos teria recuperado outros 2 milhões de votos válidos. Somados aos 6 milhões de votos anteriormente destinados aos candidatos Cury e Renan, esses movimentos explicariam 11 milhões de votos, exatamente o crescimento atribuído a Lula.

A conta fecha, mas a explicação, entretanto, exige cautela. É matematicamente possível construir esse cenário e a aritmética demonstra que a hipótese cabe nos números. Mas, na prática, sua execução é difícil.

Na região Sul Fluminense, o resultado oferece outra perspectiva sobre o comportamento eleitoral. Flávio Bolsonaro venceu nos dois turnos e manteve a preferência regional pela mudança. Ainda assim, entre uma votação e outra, seu crescimento foi de apenas 11 mil votos, enquanto Lula acrescentou 75 mil votos. A diferença é expressiva, ainda que o avanço significativo não tenha impedido a vitória regional de Flávio, mas a evolução manteve alinhamento com o algoritmo desenhado nacionalmente.

Dos 22 municípios considerados na análise da região, apenas dois (cerca de 9%) deram a vitória a Lula no primeiro turno. No segundo turno, esse número subiu para sete, aproximadamente 31%. E, invariavelmente, os municípios que optaram pela continuidade do modelo de gestão nacional apresentam maior dependência de recursos externos, baixo dinamismo econômico e frágil desempenho de gestão. Essa relação ajuda a compreender o comportamento eleitoral, sobretudo em localidades nas quais a transferência de recursos públicos e a presença do Estado são fundamentais para a sobrevivência do município.

Já em Barra do Piraí, o comportamento eleitoral foi ainda mais significativo. Flávio Bolsonaro, vencedor no primeiro turno, perdeu a disputa no segundo turno. Seu crescimento foi de apenas 351 votos, enquanto Lula acrescentou aproximadamente 5 mil votos à sua votação.

A virada barrense não pode ser compreendida apenas pela diferença entre os candidatos.

A redução das abstenções e dos votos brancos e nulos resultou em um saldo de apenas 1.491 votos válidos. Contingente insuficiente para explicar, isoladamente, o crescimento da votação de Lula.

Por outro lado, os votos destinados no primeiro turno a Caiado, Cury e Renan somaram 3.662. Quando adicionados aos 1.491 votos provenientes da redução das abstenções e dos votos brancos e nulos, chegam a 5.153 votos.

O resultado é revelador. A soma praticamente reproduz o crescimento da votação de Lula, estimado em cerca de 5 mil votos.

Considerando os números do TSE, a hipótese aritmética aponta para a migração integral dos eleitores dos candidatos Caiado, Cury e Renan para Lula, complementada pela incorporação de todos os votos que passaram a ser válidos no segundo turno. A conta aqui também fecha aritmeticamente, mas sua execução prática se transforma em um fenômeno eleitoral de improvável repetição.

 

 


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