BARRA DO PIRAÍ ENTRE A EUFORIA E A REALIDADE
Barra do Piraí vive um momento de contrastes. De um lado, uma expressiva parcela da população experimenta uma legítima e merecida sensação de euforia. Ruas importantes sendo pavimentadas, a implantação de um hospital do olho, forte sintonia política entre Executivo e Legislativo, shows frequentes e uma sucessão de eventos destinados ao lazer da população compõem uma agenda de entregas que, sem dúvida, produz resultados visíveis e alcança o imediato objetivo de encantar a população.
Não há razão para negar o mérito de quem consegue transformar recursos disponíveis em obras, serviços e entretenimento. A capacidade de fazer política e utilizar com eficiência eleitoral as oportunidades existentes precisam ser reconhecidas.
Grande parte dessa capacidade de entrega se sustenta na explosão das emendas parlamentares, característica do período pré-eleitoral. Porém, o fenômeno expõe, simultaneamente, a eficiência da gestão política e o elevado grau de dependência fiscal do município. Enquanto há recursos extraordinários, a máquina política funciona, entrega, inaugura, promove e aparece. O problema começa quando o calendário eleitoral termina e a torneira das emendas perde vazão.
Justamente aí surge o outro lado de Barra do Piraí. O município volta à gestão do cotidiano. Percebe-se, então, que a mesma eficiência demonstrada na gestão política não encontra correspondência na gestão estrutural.
O exemplo da educação é expressivo. O ensino público barrense, resultado direto das gestões escolares, evoluiu a nota do IDEB de 5,1 para 5,5 no período de 2023 a 2025. Houve avanço, é verdade, mas insuficiente para retirar Barra do Piraí da última posição entre os municípios da região. Mais marcante ainda é a heterogeneidade dos resultados. Enquanto uma escola ultrapassou a marca de 7,0, mais de um terço das escolas permaneceu abaixo de 5,0. Isso significa que o problema não é apenas a média. É a incapacidade de fazer com que a qualidade se torne uma realidade disseminada pela rede.
Não custa lembrar de que baixo padrão educacional é problema econômico. A competitividade municipal, um dos motores do desenvolvimento, começa na sala de aula.
E o município não tem se mostrado competitivo. No ranking elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), que avalia 423 municípios brasileiros, Barra do Piraí avançou do 359º lugar, em 2024, para o 353º lugar, em 2025. Melhorou seis posições, mas continua na parte mais inferior da tabela e sendo o município menos competitivo da região. Posição relativa que acende o alerta.
Em 2025, Barra do Piraí apresentava a elevada dependência fiscal de 71%; queda de 3,6% nos empregos formais; custo da função administrativa na faixa de 23%; baixa qualidade da informação fiscal, em cerca de 48%; apenas 7% dos alunos do ensino fundamental em tempo integral; 84% de cobertura de abastecimento de água; 67% de cobertura de coleta de esgoto; 0% de cobertura de tratamento de esgoto; apenas 24% de formalidade no mercado de trabalho; nenhum recurso destinado à pesquisa e desenvolvimento e somente 0,4% dos empregos vinculados ao setor criativo.
Fotografia muito diferente daquela exibida pela superfície do município. Enquanto a parte visível celebra obras, eventos e inaugurações, a parte interior revela uma economia permanentemente debilitada, lentidão no crescimento econômico, baixa densidade de negócios e de capacidade para gerar oportunidades, infraestrutura incompleta, educação insuficiente, mercado de trabalho pouco formalizado e elevada dependência institucional.
A consequência desse contraste é uma perigosa inversão de prioridades. O município passa a ser eficiente na criação de vagas (temporárias), mas não na criação de oportunidades (permanentes). Vagas podem ser financiadas por recursos extraordinários (emendas parlamentares). Oportunidades dependem de educação, infraestrutura, ambiente de negócios, segurança jurídica, saneamento, qualificação profissional e capacidade de atrair investimentos.
Uma cidade pode produzir muitos eventos e continuar economicamente frágil. Pode pavimentar ruas e continuar pouco competitiva. Pode inaugurar equipamentos e permanecer dependente de recursos externos. Pode fazer política com eficiência e, ainda assim, fracassar na construção de uma economia capaz de sustentar o município. Por outro lado, emendas parlamentares podem também ser utilizadas como aceleradores de um projeto de município, não somente como combustível permanente de sobrevivência política.
E, então, quando o período eleitoral passar, sobra o município. Sobra a escola. Sobra o hospital. Sobra o saneamento. Sobra o emprego. Sobra a qualificação profissional. Sobra a capacidade de arrecadar. Sobra a necessidade de atrair empresas. Sobra a responsabilidade de pagar as contas.
Esse é um diagnóstico que poderia até ser utilizado para um projeto de município. E, então, Barra do Piraí teria a chance de alcançar o padrão econômico compatível com sua potencialidade, pelo desenvolvimento de um projeto de município a ser construído por uma equipe coesa e capacitada, com metas claras e viáveis, indicadores públicos e capacidade de execução.
Um projeto que poderia até estabelecer como metas, por exemplo, reduzir inicialmente e de forma sustentável a dependência fiscal do município para valores abaixo de 50%; elevar a qualidade da educação pública municipal para níveis superiores a 7,0 no IDEB; implementar avaliação de desempenho municipal; reduzir o custo da função administrativa para taxas abaixo de 10%; elevar, no primeiro momento, o Índice FIRJAN de Gestão Fiscal – IFGF do município para valores acima de 0,6; criar condições para que o PIB municipal cresça em taxas acima da média regional; implantar políticas públicas de inclusão produtiva no município; organizar a saúde e a administração dos hospitais públicos com foco no eficiente atendimento ao paciente; dobrar anualmente a participação no ensino em tempo integral; universalizar o abastecimento de água; ampliar a coleta e, principalmente, o tratamento de esgoto; aumentar anualmente a formalidade do mercado de trabalho; criar políticas de estímulo a pesquisa, inovação e economia criativa; e, sobretudo, estabelecer as condições para que investimentos produtivos encontrem em Barra do Piraí um ambiente capaz de recebê-los.
Afinal, entre lazer, competitividade e desenvolvimento não há conflito. Há gestão.


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