ALGUNS RECADOS DAS URNAS BARRENSES
O primeiro turno das eleições de 2026 em Barra do Piraí produziu um interessante diagnóstico. As urnas revelaram uma cidade com expressiva parcela do eleitorado afastada da participação eleitoral, mudança de orientação em relação a 2022 e uma relação ainda marcada pela valorização do presente em detrimento de projetos de longo prazo.
O primeiro dado é talvez o mais importante ao mostrar que 23% dos eleitores barrenses não compareceram às urnas. Percentual que supera a abstenção nacional, de aproximadamente 21%. Quase um em cada quatro eleitores do município simplesmente não participou da escolha, sinalizando uma relevante distância entre razoável parcela da população e o processo político. É possível que esses eleitores não mais enxerguem vantagem em votar.
Ainda assim, o município apresentou uma concreta mudança em seu mapa eleitoral. Entre os que foram às urnas, Barra do Piraí se reorientou em relação a 2022 e acompanhou a tendência observada no país, dando a Flávio Bolsonaro (PL) aproximadamente 48% dos votos válidos. Na disputa pelo Governo do Estado, Douglas Ruas (PL) obteve percentual semelhante, também próximo de 48% dos votos válidos.
O segundo componente do diagnóstico é mais estrutural.
Barra do Piraí parece possuir uma cultura eleitoral fortemente concentrada no presente. A avaliação política frequentemente se concentra no que foi recentemente entregue, seja uma obra, uma intervenção urbana, um evento, um equipamento público ou qualquer outro resultado visível. O passado perde peso, o futuro desaparece, o político aprende a entregar algo somente antes das eleições e se estabelece um contrato eleitoral de curtíssimo prazo. O eleitor cobra resultado imediato e o político responde com presença eleitoral periódica. E a política municipal permanece presa ao calendário de 2 ou 4 anos.
O terceiro diagnóstico é aritmético.
Essa eleição confirmou que a pulverização eleitoral não tem permitido que o eleitorado barrense eleja, isoladamente, deputados federais e estaduais.
Candidatos de fora do município, que receberam forte apoio de lideranças locais e foram associados à destinação de emendas parlamentares para Barra do Piraí, chegaram a obter cerca de 10% dos votos válidos no município. É muito voto para o município, mas, quando o número de votos é comparado com suas votações totais, representa apenas aproximadamente 3% ou 4%.
A conclusão matemática é simples. Eles, os candidatos de fora, receberam uma votação relevante em Barra do Piraí, mas não dependeram dela para alcançar a eleição.
Já a situação dos candidatos barrenses foi exatamente inversa.
Eles também alcançaram aproximadamente 10% dos votos válidos do município, mas essa votação representou entre 73% e 86% de suas respectivas votações totais. Portanto, para uma candidatura estadual ou federal, obter 10% dos votos válidos de Barra do Piraí não significa o mesmo valor para um candidato de fora e para um candidato local. Para o candidato de fora, pode ser apenas uma pequena parcela de uma votação distribuída regionalmente. Para o candidato barrense, representa quase toda a sua votação.
Há aí um problema estratégico. Uma candidatura barrense a deputado estadual ou federal não pode ser construída como se a eleição terminasse nos limites de Barra do Piraí.
O município possui cerca de 69 mil eleitores. É uma base importante para um candidato local, mas, pela pulverização, insuficiente para sustentar sozinha uma candidatura competitiva em escala estadual ou federal. Pretender fazer isso é ignorar a natureza proporcional das eleições legislativas. Concentrar 73%, 80% ou 86% da votação total em um único município revela força territorial, mas não ter capilaridade é obstáculo intransponível.
Além disso, há ainda uma assimetria que Barra do Piraí precisa enfrentar. A elevada dependência fiscal cria dependência das emendas parlamentares. Porém, os parlamentares de fora não precisam dos votos barrenses na mesma proporção. Em outras palavras, sem os votos barrenses eles estariam eleitos da mesma forma. Barra do Piraí precisa deles, mas eles não precisam de Barra do Piraí. Esse é um dos maiores riscos do município. Uma cidade economicamente mais forte negocia melhor. Uma cidade eleitoralmente organizada também negocia melhor.
Finalizando, resultados quando analisados se transformam em informação, quando não analisados, resta o acaso.
Portanto, para evitar o acaso a abstenção deveria ser enfrentada; a candidatura federal ou estadual de barrenses precisa nascer em Barra do Piraí, mas não pode terminar em Barra do Piraí; a dependência estrutural de recursos externos deveria ser reduzida e o futuro deveria ser considerado pelo eleitor.


Você precisa fazer login para comentar.