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O NOVO COMPLEXO VIÁRIO DE BARRA DO PIRAÍ

A entrega, nesta semana, de um novo complexo viário em Barra do Piraí, contrapartida da concessão ferroviária explorada pela MRS Logística, representa um marco relevante para a mobilidade urbana local e, sobretudo, um raro exemplo de retorno concreto de uma infraestrutura historicamente percebida apenas como elemento de passagem, e não de desenvolvimento.

Por décadas, o município assistiu à ferrovia cruzar seu território sem conseguir converter sua presença em permanentes ganhos estruturais. Ainda assim, o retorno passivo materializado no novo complexo viário assume valor estratégico, não apenas por desafogar o trânsito do centro do município, mas também por melhorar a circulação de mercadorias, ampliar a eficiência logística urbana e contribuir para elevar a qualidade de vida do cidadão barrense. É, sem sombra de dúvida, um investimento externo capaz de gerar impactos duradouros.

Esse avanço, entretanto, expõe um paradoxo já bastante conhecido do barrense. Enquanto iniciativas estruturantes são raras, ao dependerem de agentes externos, concessões federais, empresas ou investimentos indiretos, observa-se simultaneamente grande dinamismo na organização de eventos festivos e agendas voltadas ao calendário eleitoral. Essa coexistência entre abundância de recursos para ações de curto prazo e persistentes carências em saúde, saneamento básico e atração industrial sugere claramente que o principal gargalo barrense não é a escassez de recursos, mas fragilidades na gestão, na governança. Debilidades que acabam inviabilizando, por exemplo, a industrialização do município.

Industrialização não se constrói por decreto. Municípios com limitada autonomia política e econômica enfrentam reais obstáculos para fomentar parques produtivos competitivos. Industrializar exige planejamento de longo prazo, estabilidade institucional, infraestrutura logística, contínua qualificação profissional e capacidade de gestão, elementos raros em ambientes administrativos fortemente influenciados por curtos ciclos eleitorais.

Além disso, o custo de entrada é elevado ao envolver investimentos privados em tecnologia, equipamentos, manutenção, insumos, regulação, organização de cadeias produtivas e formação técnica da mão de obra. Adicionalmente, o retorno financeiro, por sua natureza, é gradual, de médio para longo prazo. Em contraste, o turismo apresenta uma porta de entrada mais fácil e mais acessível, especialmente quando apoiado em patrimônio histórico, paisagens naturais e já existentes manifestações culturais, que além de proporcionar retorno mais rápido, ainda que concentrado, tangencia os entraves e a estruturação exigidos para retornos duradouros.

Ainda assim, a experiência demonstra que ambientes orientados à produção consolidam melhores indicadores educacionais, maior qualificação profissional, decisões administrativas mais técnicas e mais eficientes serviços públicos. Por exemplo, uma simples comparação entre os municípios de São Paulo, estruturado sobre produção e conhecimento, e Rio de Janeiro, focado em turismo e lazer, mostra com clareza qual dos dois municípios oferece ensino de melhor qualidade, saúde de melhor qualidade, profissionais mais preparados, economia mais forte, mais dinâmica e melhor qualidade de vida.

Por outro lado, também é fato que produção e lazer não são caminhos excludentes. Ao contrário, quando articulados dentro de uma coerente estratégia de desenvolvimento, tornam-se mutuamente impulsionadores. O turismo dinamiza o presente e a indústria estrutura o futuro.

É sob essa perspectiva que o cenário barrense revela desequilíbrio nas prioridades públicas. A predominante destinação de recursos para ações de retorno imediato é dominada pela lógica do ciclo eleitoral, em detrimento da construção de permanentes capacidades estruturais. O resultado dessa opção pela superfície é a recorrente manutenção do município na periferia da região.

Diante de tudo isso, surge o novo complexo viário que inaugura significativa oportunidade. Ao melhorar a mobilidade urbana, reduzir custos de deslocamento, facilitar o acesso ao comércio e aumentar a produtividade local, esse investimento da MRS Logística não é uma obra isolada, mas passível de ser utilizado como estímulo para uma agenda mais ambiciosa de desenvolvimento.

 

Luiz Bittencourt

 


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