O PARADOXO INCÔMODO DO AGRO
Desde o período colonial o agronegócio protagoniza a economia brasileira. Uma pesquisa histórica revela que a cana-de-açúcar dos séculos XVI e XVII abriu a primeira grande fronteira econômica, seguida pela pecuária que avançou pelo Sul do país. No final do século XIX e início do século XX, o café transformou a região Sudeste, financiou ferrovias, movimentou portos, estimulou o comércio e atraiu imigrantes que ajudaram a formar uma nova força de trabalho e contribuíram para reorganizar a produção.
Mas a grande revolução do campo brasileiro aconteceu em 1973 com a criação da Embrapa que, associada à mecanização, aos fertilizantes, ao melhoramento genético, à irrigação e à ocupação produtiva da região Centro-Oeste, mudou a geografia e transformou um país que dependia da importação de alimentos em uma potência agrícola mundial.
Como consequência, o campo brasileiro opera hoje com satélites, drones, sensores, biotecnologia, inteligência artificial e agricultura de precisão. O trator se transformou em plataforma tecnológica e o produtor ultrapassou a terra, a chuva e a experiência e agora trabalha com informação.
O Brasil chegou ao Agro 4.0 com um extraordinário resultado. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169 bilhões, respondeu por quase metade das exportações nacionais e a produção de grãos alcançou 350 milhões de toneladas. Em diversas cadeias, soja, café, açúcar, carnes, milho, algodão, celulose e suco de laranja, o Brasil se coloca entre os grandes líderes mundiais.
Foi essa trajetória do agronegócio que permitiu a transformação do interior brasileiro. Ao demandar estrada, energia, internet, combustível, máquinas, mecânicos, motoristas, agrônomos, veterinários, bancos, seguros, armazéns, comércio e serviços, o campo passou a movimentar cidades inteiras. Formalizou o trabalho, substituiu a bolsa pelo emprego, normalizou o salário, permitiu o acesso ao plano de saúde, ao crédito e à perspectiva profissional e terminou mudando a relação do cidadão com o Estado.
Ao proporcionar conhecimento e autonomia, a revolução do agro repercutiu também na política. Com a independência econômica, o trabalhador rural não mais enxerga o Estado como provedor, mas como prestador de serviços. Radical alteração a desequilibrar projetos de poder, incomodando o establishment que, naturalmente, responsabiliza o agro pela destruição da automática conexão eleitoral.
Essa é, certamente, uma das maiores transformações produzidas pelo agronegócio brasileiro. Com seu extraordinário desempenho, o agro evidenciou a ineficácia dos discursos e dos decretos na produção da autonomia.
Em que pese o ambiente hostil, decorrente da extinção da “conveniente” dependência do Estado, o avanço do agro é irreversível. Após cinco séculos, o campo chega de forma sustentável ao digital, amparado em conhecimento, produtividade, competitividade, princípios, trabalho e desenvolvimento, produzindo riqueza, gerando renda, participando com quase um terço do PIB nacional e metade das exportações brasileiras. O engenho é remoto passado.


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